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O baile sem convite

Há na política uma arte antiga, quase teatral, que consiste em narrar a própria importância como se ela fosse desejo alheio. O ator se posta no centro do palco, ajeita o figurino, e anuncia que todos o procuram. Pouco importa se as plateias permanecem distraídas, conversando entre si, voltadas para outros camarotes. O essencial é a encenação. E é exatamente essa peça que o deputado Arthur Lira, pré-candidato ao Senado, tem ensaiado com aplicação digna de melhor causa.

O enredo é conhecido: Lira alimenta, com paciência de bordadeira, a narrativa de que seria o aliado cobiçado por JHC e Alfredo Gaspar para os embates que se avizinham. Ocorre que os sinais emitidos pelos dois — e na política os sinais valem mais que os discursos — apontam para o lado oposto. Cada um deles tem demonstrado, em momentos diversos, a disposição de trilhar caminhos próprios, sem o menor aceno de composição com o grupo do deputado.

Eis a sutileza da coisa. Uma aproximação que, até aqui, habita muito mais o território da especulação do que o da realidade. Lira fala de um cortejo que ninguém confirmou ter iniciado. Mantém viva uma corte que talvez exista apenas em sua imaginação — ou, mais provavelmente, em seu cálculo.

Porque é disso que se trata. Se um entendimento vier a se concretizar lá adiante, dificilmente nascerá do entusiasmo. Será, como quase sempre na política, filho legítimo da conveniência, do cálculo frio, da estratégia eleitoral. Casamentos de razão raramente começam com declarações de amor — começam com inventário de dotes.

Até que esse dia chegue, se chegar, a narrativa de que JHC e Alfredo estariam à procura de Arthur Lira serve, antes de tudo, ao próprio Arthur Lira. É a velha tática de quem, não sendo convidado para o baile, espalha que recusou o convite. Ora, pois. Na política como no teatro, o pior dos papéis é o do galã que ninguém disputa — e que, por isso mesmo, precisa anunciar sozinho o próprio assédio.

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