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Coragem de microfone

Há discursos que aspiram à epopeia e terminam na ópera-bufa. O do governador Paulo Dantas, esta semana, no Palácio República dos Palmares, diante de uma plateia de dirigentes constrangidos da Segurança Pública, foi desses. Querendo soar como Maquiavel a aconselhar o príncipe sobre o uso da força, saiu-lhe um sainete de teatro de revista — daqueles em que o herói brande a espada de papelão e o cenário treme ao primeiro vento.

“Eu não tenho medo do PCC”, anunciou, com a valentia retórica de quem confunde microfone com trincheira. E foi em frente, emprestando ao gestual a herança política da casa, no melhor estilo dos Calheiros — pai e filho —, esses mestres da pose para a galeria. Declarou-se favorável a qualificar as facções como organizações terroristas, fazendo coro com Trump, sem reparar que terroristas, segundo os que entendem do assunto, têm motivação ideológica, coisa que por aqui rareia tanto quanto a coragem das elites de que tanto se fala.

O recado veio em maiúsculas, ou quase: “Bandido aqui ou vai preso ou vai morrer.” Haja estômago. E então, como quem reserva para o fim o golpe de mestre da oratória, o governador descerrou a cortina sobre sua filosofia de Estado, condensada numa sentença que entrará para os anais — não da política, mas do folclore: “Aqui é pau no totó.”

Ora, pois. Eis a República dos Palmares reduzida a uma fábula às avessas, onde o lobo ladra mais alto justamente porque já não morde. O lacre substitui a política, o gesto substitui a gestão, e a plateia aplaude por dever de ofício, com aquele sorriso amarelo de quem foi convocado para a foto.

Resta a ironia involuntária, sempre a mais saborosa. Se o medo é mesmo o princípio reitor daquele palácio — o medo que o governador impõe aos bandidos com seu verbo flamejante —, talvez se explique, enfim, por que nenhum integrante de sua equipe jamais se envolveu em falcatrua alguma. Não por virtude. Por puro pavor do tal pau no totó.

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