Há uma espécie de maré que, quando vira, não avisa. Chega mansa, quase imperceptível, lambendo os calcanhares dos que dormiam tranquilos à beira da praia. E quando percebem, já estão com a areia sumindo sob os pés. É exatamente essa a imagem que os números alagoanos de 2026 estão pintando, com JHC consolidado como o grande favorito ao Palácio República dos Palmares e o bloco governista olhando para o horizonte sem encontrar terra firme à vista.
O favoritismo não surgiu do acaso, nem da fortuna cega que Maquiavel tanto ensinou a não se fiar. Há ali uma leitura correta do tempo político — esse instante raro em que o eleitorado decide, quase em silêncio, que passou da hora de virar a página. As pesquisas, como aponta a revista Veja, traduzem em números o que as ruas já sussurravam: uma guinada em direção à direita e ao centro, quebrando hegemonias que pareciam, aos olhos dos que as detinham, eternas como pedra.
E o que fazem as hegemonias quando começam a rachar? Costumam reagir com o único recurso que conhecem: a promessa de que tudo ficará igual. É o reflexo pavloviano do poder acuado. O bloco governista, reduzido ao espaço que o próprio material descreve como escasso, encontra-se nesse estágio clínico delicado — não ainda em colapso, mas com os sintomas de quem ignorou por tempo demais os sinais da doença.
O crescimento de legendas como União Brasil, PSD e PP ao redor do nome de JHC não é coincidência nem ornamento eleitoral. É o movimento natural das forças que, farejando o vento da vitória, se reposicionam com a agilidade típica de quem sabe que na política o trem não passa duas vezes no mesmo horário. Chama-se pragmatismo. Os mais severos chamariam de outra coisa, mas esse é um debate para depois das urnas.
Resta saber se o favoritismo resistirá ao peso que ele mesmo carrega. Pois há algo de paradoxal na condição do grande favorito: ele começa a campanha sem o único combustível que a política verdadeiramente aprecia, que é a urgência. Quando tudo parece ganho, o descuido espreita. E a história eleitoral brasileira tem cemitérios generosos, repletos de lápides de candidatos que surfaram ondas parecidas — e foram tragados por elas.
Por ora, a maré é de JHC. Mas o mar, como se sabe, não combina com arrogância.




