Maceió []
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Rara avis

Há uma velha distinção, na arte da política, entre aqueles que governam para a história e aqueles que governam para a fotografia. Os primeiros plantam onde talvez nunca venham a colher. Os segundos colhem onde nunca plantaram coisa alguma — e ainda cobram o frete.

Maceió, nos últimos anos, tornou-se um desses casos que desconcertam o cinismo profissional. Não porque a cidade seja perfeita — nenhuma cidade brasileira o é, e quem afirmar o contrário ou não conhece o Brasil ou está vendendo algo. Mas porque algo de concreto, mensurável e visível aconteceu lá, no calor úmido do Nordeste, à beira do Atlântico, onde tantas promessas já morreram de sede. Um Hospital da Cidade. Uma Casa do Autista. Um programa chamado Gigantinhos — nome que já carrega, em si mesmo, a declaração de intenção de quem o batizou.

Diga-se: em política, os detalhes traem os governantes antes que os escândalos os alcancem. E os detalhes de Maceió — a requalificação urbana, a modernização dos equipamentos públicos, a atração de investimentos privados, o turismo reposicionado no mapa nacional — têm a textura obstinada de quem não governa apenas com o olho no calendário eleitoral. JHC construiu o que os técnicos chamam de case e o vocabulário popular chamaria, com menos pompa e mais exatidão, de resultado.

Ora, pois. O Brasil tem talento singular para ignorar o que funciona e eleger como referência nacional justamente aquilo que não deu certo em lugar nenhum. É um complexo de vira-latas às avessas: a desconfiança do sucesso doméstico, a suspeita de que qualquer coisa boa feita aqui dentro esconde algum truque, algum atalho, alguma mentira bem embalada. Talvez por isso Maceió surpreenda — porque o que se vê não combina com o que se esperava ver.

O que resta ao observador honesto é reconhecer que a combinação de crescimento econômico, inclusão social e qualidade de vida não é slogan de campanha quando vem acompanhada de hospital, de política para autistas, de cidade refeita na sua carne urbana. É programa de governo executado. Coisa rara. Quase exótica entre nós. Haja estômago para admiti-lo — e haja lucidez para aprender com o que funciona, antes que a preguiça intelectual da política brasileira transforme o exemplo em esquecimento.

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