Há certas peças de teatro que dispensam crítica. Bastam-lhes os atores, o palco e a luz crua do desespero para que a audiência entenda o enredo sem que ninguém precise dar uma única explicação. É o que se assiste agora em Alagoas, onde o clã Calheiros encenou para o eleitorado um espetáculo que mistura tragédia dinástica com aquelas novelas de fim de tarde em que a família se devora a si mesma antes que o inimigo externo sequer chegue ao portão.
O roteiro é simples, quase didático. Renan Calheiros, o senador curtido em décadas de batalhas e cicatrizes eleitorais, assumiu o papel de escudo humano do filho, Renan Filho, lançando-se na frente dos projéteis como quem conhece de sobra a própria resistência a balas. Sabe o patriarca que sua rejeição junto ao eleitor alagoano está calcificada — não há mais adjetivo que o surpreenda, não há ataque que ainda doa com novidade. Virou o para-choque do clã, absorve as colisões, inclusive as da senadora Dra. Eudócia Caldas, e sorri porque é exatamente para isso que serve um veterano curtido: para aguentar o tranco que derrubaria um novato.
Só que do outro lado da corda, o filho revela involuntariamente o tamanho do sufoco. Renan Filho recorre à sua passagem pelo governo estadual e ao cargo em Brasília como se fossem tábuas de salvação numa tormenta, tentando puxar o sobrenome da família para a superfície com a fórceps da gestão moderada. É o herdeiro tentando lavar o nome antes que o nome afunde — gesto nobre, sem dúvida, mas que carrega consigo a confissão implícita de que há algo a lavar.
Maquiavel, que entendia de clãs, de príncipes e de sucessões, diria que o erro dos Calheiros não está na bravura, mas na dependência mútua. Duas pessoas que dependem uma da outra para sobreviver politicamente não se fortalecem — apenas dividem o mesmo peso sobre os mesmos pés. O pai bate para desviar o foco; o filho tenta parecer moderado para salvar o sobrenome. Juntos, constroem um sistema de ajuda mútua que, no fundo, é um abraço dado no beira do abismo.
Resta ao eleitor alagoano a curiosidade de saber se esse vale-tudo dinástico terá fôlego suficiente para conter o avanço de JHC e dos adversários que aguardam, pacientes, enquanto a família se gasta em esforço próprio. Porque há abismos que se atravessam abraçado, é verdade — mas há outros em que o abraço apenas garante que os dois chegam juntos ao fundo.




