Há uma pergunta que a aritmética política de Alagoas não consegue responder, por mais que se tente encaixar os números. Um senador da República com décadas de casas legislativas percorridas. Um filho que ocupou duas vezes o Palácio de governo do estado e hoje comanda o Ministério dos Transportes em Brasília. Um aliado fiel que somou mais um mandato ao inventário familiar. Acesso direto ao presidente Lula. E, ao final de toda essa engenharia de poder, Alagoas desponta como o terceiro estado mais pobre do Brasil. Não é ironia. É geometria. Quando uma família acumula tantos mandatos, tantos ministérios, tantos corredores de influência numa república federativa, o mínimo que se poderia esperar — o mínimo, diga-se — é que o chão de sua própria terra refletisse ao menos uma fração desse esforço acumulado. Que as estradas ficassem mais largas. Que as crianças fossem mais longe. Que a pobreza, mesmo que lentamente, cedesse algum milímetro à dignidade. Mas há uma lógica perversa nessa conta que não fecha: o poder bem exercido em nome próprio raramente sobra para o bem comum. É uma lei não escrita da nossa política patrimonial, aquela em que o mandato é herança, o ministério é feudo e o eleitor é figurante de uma peça que se repete sem que ninguém mude o roteiro. Alagoas merecia o contrário. Com tanta representação, tanta proximidade com o centro das decisões, o estado deveria estar entre os que avançam, não entre os que ilustram mapas de privação. O paradoxo é cruel demais para ser coincidência e prosaico demais para ser tragédia — é simplesmente o retrato fiel de uma política que cuida muito bem de si mesma e delega o resto à providência.




