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Dois partidos, uma rédea

Há uma certa pedagogia do poder que se aprende não nos grandes salões da República, não nas tribunas sonoras do Congresso, não nos gabinetes onde se decide o destino de milhões — mas nas câmaras municipais do interior, naquelas salinhas com ar-condicionado barulhento e bandeiras desbotadas, onde o vereador de plantão descobre, ainda jovem na carreira, que a política é antes de tudo uma questão de adesivo.

Literalmente. O episódio que chegou ao conhecimento desta coluna tem a singeleza perturbadora das coisas verdadeiras: um vereador interiorano sobe à capital carregando duas reclamações na bagagem. A primeira, que o prefeito de sua cidade pressiona comissionados a votarem nos candidatos do MDB. A segunda, que uma vereadora de Maceió ousou circular sem o adesivo do candidato do PSDB no carro. Diante da heresia do parabrisas nu, a sentença foi imediata e desprovida de qualquer cerimônia: “tem que dá pressão nela.”

Dois partidos, uma mesma lógica. O MDB coagindo servidores no interior. O PSDB cobrando o símbolo adesivo como prova de lealdade na capital. Podia ser qualquer sigla, bem entendido — porque o problema não mora na letra do partido, mora na cabeça de quem o dirige como se fosse fazenda particular, com capatazes, com rédea e com cerca elétrica invisible.

O servidor comissionado que precisa votar conforme o patrão manda e a vereadora que precisa colar o nome alheio no próprio carro são, no fundo, a mesma figura: a do subordinado a quem se nega a discreta dignidade de uma opinião. A pressão não é acidente nem excesso de zeal — é método. É a política entendida como relação de dependência total, onde a autonomia do outro representa, sempre, uma ameaça à ordem estabelecida.

Chama atenção, neste pequeno teatro, a naturalidade com que tudo foi dito. Sem sussurro, sem eufemismo, sem o verniz de qualquer constrangimento. “Tem que dá pressão nela.” A frase soa como quem pede para alguém abaixar o volume da televisão. É a banalidade do mando em sua forma mais pura — e é justamente essa naturalidade que deveria inquietar. Porque o que se normalizou não foi apenas a pressão sobre um indivíduo. Foi a ideia de que corpos, votos e carros alheios são, todos eles, território de quem tem poder suficiente para exigir.

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