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A sombra que não afasta ninguém

Há situações na política que não precisam de sentença judicial para revelar o que são. Basta olhar. Com atenção. Sem pressa. O quadro se pinta sozinho.

O que se discute em Alagoas não é novidade no repertório da administração pública brasileira — é quase um gênero literário à parte, com enredo previsível e personagens intercambiáveis. Uma empresa investigada por contratos com o setor público. Um gestor no centro das suspeitas. A empresa, ao depois, migra para o nome da esposa, com a mesma naturalidade com que se transfere um imóvel de veraneio. E os contratos, observe bem, continuam. Os repasses, idem. Como se nada houvesse, como se o mundo fosse de fato plano e a vista dos cidadãos curta demais para alcançar a linha do horizonte.

O secretário de Saúde permanece no cargo. Não há condenação definitiva — argumento que, diga-se, é tecnicamente correto e politicamente conveniente em igual medida. A presunção de inocência é pilar do Estado de Direito; ninguém em sã consciência a questiona. O problema não é jurídico. É de discernimento político e de sensibilidade institucional — virtudes que, ao que parece, escasseiam na mesma proporção em que os contratos prosperam.

Porque uma coisa é a inocência presumida perante a lei. Outra, bastante distinta, é a gestão pública continuar irrigando com dinheiro do contribuinte uma empresa que carrega a sombra de investigações, independentemente de quem assina o CNPJ hoje. A toga não precisa bater o martelo para que o bom senso já tenha dado o seu veredicto. E os alagoanos — que financiam o sistema de saúde do estado com seus impostos e com sua confiança — merecem mais do que o silêncio ensurdecedor dos órgãos de controle.

A pergunta que paira sobre tudo isso é simples e desconfortável: onde estão os fiscais? Não os da retórica, não os do organograma, mas os da ação concreta, da auditoria tempestiva, da transparência real e não a de vitrine. Quando a sociedade precisa aguardar o desfecho lento da Justiça para obter o que os mecanismos de controle deveriam entregar com agilidade, algo está fundamentalmente errado na arquitetura da vigilância pública. E esse erro, convenhamos, raramente é involuntário.

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