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Dois na mesma esquina

Alagoas tem uma geografia eleitoral que não mente. Quanto mais fundo no sertão, mais lulista é o eleitor — e o presidente sabe disso, caminha por lá como quem atravessa território familiar. No agreste e na zona da mata, o equilíbrio. No litoral e na capital, a maré vira. É uma equação simples e implacável, e quem entende de política alagoana lê o mapa como se lesse a palma da mão.

É nesse litoral que Davi Davino Filho e Alfredo Gaspar de Mendonça enxergam a fresta pela qual pretendem se espiar para dentro do Senado. Lançado pré-candidato neste sábado, Davino se junta a Gaspar numa disputa que tem, antes de qualquer coisa, o problema clássico dos concorrentes que vendem o mesmo produto na mesma esquina: ambos pescam no mesmo cardume conservador, ambos falam ao bolsonarismo, ambos têm poucos prefeitos, pouco dinheiro, pouca infraestrutura. A diferença entre eles, por ora, não é de substância — é de partido. Republicanos de um lado, PL do outro. O eleitor que se identifica com um, em geral, olha para o outro sem estranhamento.

E enquanto os dois se observam com a desconfiança discreta de quem divide um barco pequeno, Arthur Lira segue costurando a política como quem conhece o fio e a agulha desde criança. A estratégia lirista é velha e eficaz: prefeitos, vereadores, lideranças municipais — sobretudo no interior. A mesma cartilha dos Calheiros, aplicada com a frieza de quem não precisa mais provar nada. Não por acaso, prefeitos do campo calheirista já acenam com o segundo voto a Lira, e o movimento é recíproco. A política alagoana tem seus próprios protocolos de coexistência.

O terreno, porém, não é inteiramente hostil a Davino e Gaspar. Há municípios onde prefeitos populares e alinhados ao campo lulista simplesmente não conseguem arrastar votos de peso para o presidente — são as faixas mais próximas de Maceió, mais litorâneas, onde o conservadorismo não é postura, é convicção. Ali, o voto pode ir a um governador ou a um prefeito do campo progressista e reservar o segundo slot para alguém que fale a língua da direita-raiz. É o eleitor que compartimenta sem culpa, que divide o voto como quem separa a conta no restaurante.

Os números de ambos têm sua lógica. Davino foi terceiro na corrida à prefeitura em 2020, segundo ao Senado em 2022 — e venceu Renan Filho na capital. Gaspar foi segundo à prefeitura em 2020 e elegeu-se deputado federal dois anos depois. Histórias de resistência, não de vitória. O que os aproxima é exatamente isso: sabem que não constroem hegemonia, sabem que a máquina Calheiros-Lira domina o território profundo do estado. Mas apostam que o mapa tem buracos, e que buracos, em política, às vezes são suficientes.

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