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O medo dos outros

O medo é uma categoria política subestimada. Governos caem por ele. Alianças se desfazem por ele. Homens que pareciam invencíveis recuam, negociam, capitulam — tudo por ele. Não espanta, portanto, que JHC, pré-candidato ao governo de Alagoas, tenha escolhido o medo como eixo narrativo da sua campanha. O que espanta é a elegância da inversão: não é ele quem teme, proclama — são eles.

Eles. O pronome vago, deliberado, que em Alagoas dispensa explicação. O grupo Calheiros, que por décadas calibrou o peso e a medida de cada movimento político no estado, agora aparece na retórica de JHC com a fisionomia dos que perderam o sono. Pode ser verdade. Pode ser estratégia. Com frequência, em política, as duas coisas são a mesma.

A apelação ao alagoano sem medo tem a estrutura das grandes convocações populares — aquele gesto de braços abertos que diz: venham comigo, pois os poderosos tremem. Funciona quando há fogo real por trás do discurso. Quando não há, vira folclore de palanque, a espécie mais abundante do gênero.

O que está em jogo, no fundo, não é a coragem de ninguém. É a disputa por um estado que conhece, melhor do que a maioria, o que significa viver sob a sombra longa de uma oligarquia bem instalada. Alagoas já viu muita aurora que acabou em entardecer precoce. Já viu candidatos que vieram com o peito estufado e saíram pela porta dos fundos de algum acordo de bastidor. A memória política local é, para usar uma imagem exata, um cemitério de bravuras anunciadas.

JHC pode ser diferente. Essa possibilidade existe, e seria leviana descartá-la. Mas a diferença não se prova na frase feita nem na interpelação ao torcedor. Prova-se no longo percurso que resta, nas escolhas que o caminho obriga, nos momentos em que o medo — o medo verdadeiro, não o dos adversários, mas o seu próprio — bater à porta. Nessa hora, a retórica vai embora e fica o homem.

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