Há movimentos na política que dispensam comentário — e há aqueles que pedem, no mínimo, uma pausa de espanto. O que Arthur Lira acaba de executar em Alagoas pertence à segunda categoria.
O ex-presidente da Câmara, hoje candidato ao Senado, selou aliança com o PL de Flávio Bolsonaro. A coligação batizada de “Alagoas Forte” reúne a Federação União Progressista e o partido que abraça a candidatura presidencial do campo bolsonarista. Letra de convenção, ata registrada, deliberação consumada. Não há margem para eufemismo ou releitura caridosa.
O que torna o episódio particularmente interessante é o que ele desfaz ao mesmo tempo que constrói. Lira comandou, durante anos de presidência da Câmara, uma engenharia de sobrevivência que poucos dominam com tamanha virtuosidade: manter-se indispensável a todos sem pertencer definitivamente a ninguém. Era o fiel da balança. O árbitro que nunca virava torcedor. Pois bem — esse tempo acabou. Ao entrar na coligação bolsonarista, Lira não apenas escolheu um lado; entregou ao presidente Lula a confirmação de que a esperada neutralidade alagoana não virá. Lula esperava. Não terá.
Convém lembrar que Lira não chega a esta escolha desprovido de recursos. Os maiores e mais endinheirados cargos federais em Alagoas passam por sua influência — CBTU, Codevast, Chesf, Incra. É um arsenal de capilaridade que poucos parlamentares podem exibir. Com esse patrimônio político na bagagem, a adesão ao campo do PL não é um gesto de desespero: é uma aposta calculada, a de quem acredita que o vento de 2026 sopra numa direção e decide, enfim, abrir as velas.
Resta saber o preço da travessia. Em política, os que abandonam a posição de árbitro para virar jogador costumam descobrir, tarde demais, que perderam as duas funções. Lira apostou. O jogo, como sempre, só termina na última rodada.




