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Adivinhe se for capaz

Há uma modalidade de entretenimento político que o brasileiro ainda não catalogou devidamente nos manuais: a arte de não dizer nada enquanto fingi que diz tudo. JHC e Filho transformaram a escolha do vice numa espécie de charada de salão — o tipo de brincadeira em que o anfitrião sorri e os convidados fingem que acham graça.

O eleitor, nessa encenação, ocupa o papel que sempre lhe reservaram: o do curioso sem resposta, o do “bobinho” que espera, prenhes de curiosidade, enquanto os candidatos divulgam nomes para inglês ver e riem, satisfeitos, da própria astúcia. Não é maldade. É, convenhamos, falta do que fazer. Onde não há debate político de substância, o vazio precisa ser preenchido com alguma coisa — e a charada do vice é um passatempo como qualquer outro.

O que chama atenção, no entanto, é que nem mesmo a diferença de temperamento entre os dois distingue a prática. JHC tem lá o seu estilo caótico, reconhecidamente avesso à solenidade. Mas Filho, o mais velho da dupla, abraçou com igual entusiasmo o jogo do “adivinhe se for capaz” — como se a maturidade, neste caso, não viesse acompanhada de maior responsabilidade com quem vai às urnas.

Aí está o busílis, palavra que os antigos usavam com precisão: sem política de verdade, tudo vira nada, e o nada vira assunto. A pergunta que fica suspensa no ar — e que ninguém dos dois parece ter pressa em responder — é simples: quando um eleitor não tem direito de saber quem compõe o projeto pelo qual vota, o que exatamente está sendo pedido a ele? Fé? Paciência? Condescendência?

São os tempos. E os tempos, como de hábito, são o que as lideranças fazem deles.

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