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A neutralidade tem prazo de validade

A neutralidade tem seus encantos. E Arthur Lira, veterano que é, aprendeu faz tempo que em certos momentos o silêncio rende mais do que o grito.

Enquanto os demais se atracam na disputa alagoana, o ex-presidente da Câmara flutua acima da briga com a leveza calculada de quem sabe exatamente onde pisará depois. As indicações na Caixa Econômica Federal continuam assinadas com o seu nome. O Palácio do Planalto, por ora, não tem do que reclamar. Neutralidade, afinal, é o nome elegante que se dá à arte de não desperdiçar capital político antes da hora.

Mas o equilíbrio é frágil, como todo equilíbrio construído sobre interesses que apontam para direções contrárias. Alfredo Gaspar de Mendonça — aquele que pediu a prisão de Lulinha na CPMI do INSS e foi retirado da disputa estadual por Lira, encaixado como vice na chapa de Flávio Bolsonaro — carrega no bolso uma dívida política que precisa de endereço. Flávio Bolsonaro, por sua vez, já declarou que seu senador em Alagoas é Arthur. O triângulo está desenhado. Falta saber quem paga qual conta.

O nó é este: se Lira formalizar com Alfredo Gaspar o acordo que os rumores já anunciam, Brasília cobrará o preço da fidelidade. E o preço, no léxico do Planalto, chama-se neutralidade honrada — não a neutralidade de conveniência que até hoje lhe tem servido tão bem. O jogo dos interesses, como Lira melhor do que ninguém sabe, não permite generosidade sem contrapartida nem silêncio sem prazo de validade.

Cravar publicamente a existência do acordo, como especulam os bastidores, seria imprudência que Alfredo Gaspar dificilmente cometerá. Há acordos que só existem enquanto não são ditos. Pronunciá-los em voz alta é o mesmo que dissolvê-los. A política alagoana opera nessa gramática antiga, onde o que se entende vale mais do que o que se assina — e onde a neutralidade de hoje é sempre a moeda de troca de amanhã.

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