Há uma arte esquecida na política brasileira — a arte de escolher bem. Não o cabo eleitoral mais gritante, não o aliado mais ruidoso, mas aquele que, no silêncio dos gabinetes, resolve o que precisa ser resolvido. Renan Filho parece, ao menos nesse cálculo específico, ter aprendido a lição.
O nome que Filho de fato queria ao seu lado não era Fernando Farias, suplente natural e escolha protocolar. Era George Santoro, o homem que hoje cuida dos Transportes no governo Lula e que, antes disso, foi o arquiteto silencioso de boa parte do que o emedebista apresentou como legado. Os hospitais, a atenção às franjas mais pobres de Maceió — obras que viraram bandeira de campanha têm, nas suas fundações, muito da inteligência de Santoro.
A lógica do desejo era impecável. Um governador eleito que faz política, e um vice preparado e disciplinado que governa de fato. Divisão de tarefas, clareza de funções — coisa rara num país em que o vice costuma ser decoração de palanque ou estorvo de luxo. Santoro não seria nem uma coisa nem outra.
Mas política não é geometria. Entre o plano e a realidade se interpõem os palacianos, e em Alagoas os palacianos têm nome e sobrenome: MV e Dantas. A questão que fica suspensa no ar, sem resposta ainda, é se Santoro passaria pelo crivo desses guardiões do poder interno. Se ele resistiria à prova de fogo que nenhum cargo ministerial, nenhuma competência técnica e nenhuma lealdade pessoal é capaz de substituir — a aprovação de quem manda na sombra.
O que o episódio revela, no fundo, é o paradoxo recorrente do poder alagoano: a qualidade existe, o talento está disponível, a ideia boa aparece — e então entra em cena o filtro dos interesses estabelecidos, e o melhor do cardápio volta para a cozinha. Resta a Renan Filho, se a eleição ocorrer como tudo indica, conviver com a distância entre o vice que queria e o vice que tem. Pequeno consolo: não é o primeiro governador do mundo a descobrir que querer e poder são, com frequência, endereços diferentes.




