Pesquisa eleitoral é ferramenta. Como todo instrumento, responde a quem a maneja — e revela, muitas vezes, mais sobre o método do que sobre a realidade que pretende medir.
A Quaest chegou a Alagoas na segunda-feira com um número capaz de surpreender qualquer observador familiarizado com o estado: empate técnico entre Renan Filho e JHC nas intenções de voto para o governo. Acontece que todos os demais institutos que circularam por lá apontam vitória do ex-prefeito de Maceió já no primeiro turno, com folga. A estranheza foi imediata. E a explicação, quando veio, tinha a singela consistência de um erro de cartório: o Quaest perguntou aos eleitores por “João Henrique Caldas” — nome de batismo que consta no registro civil, mas que não existe no vocabulário político de Alagoas, onde o candidato é chamado por todos, desde sempre, de JHC. Os concorrentes, estes sim, foram listados pelos seus nomes de urna.
Perguntar por “João Henrique Caldas” num eleitorado que conhece apenas “JHC” é como pedir numa padaria por *Coffea arabica* e depois concluir, diante do balcão vazio, que a cidade não consome café. O dado não captura a realidade; captura o ruído produzido pela própria pergunta.
O episódio teria sabor de mero deslize técnico se não houvesse precedente. Em 2024, na corrida pela prefeitura de Maceió, o mesmo instituto projetou JHC com 69% das intenções de voto. O candidato foi reeleito com quase 84% dos votos válidos — uma distância de quinze pontos percentuais entre o retrato e o original. Dois quadros tortos, no mesmo estado, com o mesmo sujeito. Coincidências existem, mas raramente se apresentam em série.
Há uma máxima antiga nos bastidores eleitorais: o eleitor que não é encontrado pela pesquisa não deixa de votar. Ele simplesmente vota — e desfaz, na urna, toda a geometria cuidadosamente montada pelo número anterior. Alagoas parece ter desenvolvido certa perícia nessa arte de surpreender quem vem de fora medir o que os de dentro já sabem.




