Há uma ironia particular na trajetória de quem governa de costas para os governados. Não a ironia fácil, que se resolve com uma piada de fim de jantar — mas aquela que fermenta devagar, nos corredores de palácios, nas salas de espera que nunca terminam, nas secretárias que aprendem com o patrão a arte da indiferença. Oito anos deixam marcas. E nem sempre as marcas mais profundas são as que aparecem nos balanços de gestão.
O que os bastidores da política alagoana têm sussurrado é, no fundo, uma anatomia do poder mal exercido. Não o poder do desmando escancarado, nem o da corrupção que a imprensa noticia — mas aquele poder sorrateiro, feito de agendas que nunca existem e de cadeiras que esfriaram à força de tantos e tantos chás. “Muito chá de cadeira” e “nunca tinha agenda”: eis o epitáfio informal de uma era. Simples assim.
Deputados e prefeitos, os que deveriam ser interlocutores naturais de qualquer governo estadual, falam em portas na cara. Em distância. Numa frieza que descia do governador até alcançar, por osmose, a própria secretária. “Até a secretária não respeitava a gente” — a frase, dita em reserva por um dos que viveram aquele período, diz mais sobre o clima de um palácio do que qualquer relatório administrativo jamais poderia.
Renan Filho volta agora ao tabuleiro, candidato ao mesmo posto que ocupou por dois mandatos. E o passado, que deveria ser seu atestado de competência, ressurgiu como uma conta em aberto. Porque na política alagoana — como em qualquer política que se preze — a memória dos humilhados é longa, e o ressentimento dos aliados esquecidos costuma ter uma durabilidade superior à gratidão dos beneficiados. As portas que ele fechou estão, pelo relato de quem nelas bateu, escancaradas na lembrança de cada um.
Quem deseja governar pessoas precisa, antes, suportar sua presença.




