Marina Cândia aprendeu cedo que em Alagoas o rio tem corrente dupla — e que nadar contra as duas ao mesmo tempo exige mais do que fôlego: exige geometria variável.
A candidata de JHC ao Senado construiu uma arquitetura de campanha que, vista de perto, revela o cuidado artesanal de quem sabe que cada palavra pesa. Fala em Deus sem assustar os progressistas. Fala em família sem afastar as feministas. Evoca a força das mulheres e condena a misoginia — e usa esse mesmo argumento como escudo contra os Calheiros, que tentaram se apropriar da pauta para defender Lívia Carla, prefeita da Barra de Santo Antônio, num gesto que cheirava mais a manobra do que a convicção. Marina devolveu o golpe com a própria moeda deles. Elegante.
O que mais chama atenção, porém, é o que não aparece. Nos discursos de Cândia, Bolsonaro é uma espécie de personagem ausente — presente nas urnas, invisível no palco. Sem sobrenome emprestado, sem bandeira hasteada, sem o inventário de pautas que em outros estados rendem palanque. A comparação com Michelle Bolsonaro, que se autointitula “senadora da direita” e carrega o marido como um brasão de família, ilumina por contraste a escolha de Marina: ela decidiu ser candidata sem legenda emocional. Quer ganhar pelo que é, não pelo que evoca.
Isso tem um custo e uma vantagem. O custo é abrir mão de uma mobilização apaixonada que o bolsonarismo ainda é capaz de produzir. A vantagem é não ter que responder pelo inventário desse passado quando ele pesar. Em política, como nas apólices de seguro, o que está nas letras miúdas é quase sempre mais importante do que o que está em negrito.
Resta saber se Alagoas, acostumada com décadas de Calheiros no topo da pirâmide, está disposta a experimentar outra geometria. A quinta reeleição do senador seria, em qualquer democracia com memória mais curta, um fenômeno a ser explicado. Aqui, é quase um reflexo condicionado. Marina Cândia aposta que o eleitor alagoano, por mais que o hábito seja forte, em algum momento olha para o espelho e reconhece o cansaço.




