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A onça no cartório

Há segredos que se denunciam pelo esforço de guardá-los. Não pelo que revelam, mas pelo que escondem — ou tentam esconder. A Justiça indeferiu o pedido da coligação do MDB de Renan Calheiros e Renan Filho para sustar a divulgação de uma pesquisa da Paraná Pesquisa. Mas o dano já estava feito. Não pelo resultado — que até a hora em que se escreve este texto ninguém havia visto —, mas pela tentativa em si. Raramente uma ação judicial produziu efeito tão oposto ao desejado.

Pense bem na geometria desse movimento. Dois políticos experientes, pai e filho, curtidos em décadas de Senado e Palácio, resolvem acender uma fogueira no meio da praça para chamar a atenção para o que queriam que ninguém notasse. Correram ao cartório para suprimir uma pesquisa que ainda nem havia sido divulgada. O resultado foi transformar um número — qualquer que seja ele — no número mais comentado de Alagoas, ainda sem ter sido lido por ninguém.

Existe na velha arte da política uma máxima que os Renans conhecem melhor que ninguém, mas que, ao que tudo indica, esqueceram nessa tarde de impulso: adversários se neutralizam pelo silêncio, não pela intimação. O juiz que manda prender o boato dá ao boato a consistência de sentença. Agora a pergunta que ressoa nos corredores, nos grupos de WhatsApp e nas redações não é mais “o que diz a pesquisa?” — é “o que é que eles não querem que a gente saiba?”. Não há pesquisa de intenção de voto capaz de produzir estrago maior do que esse.

A cena tem algo de tragicômico — e de profundamente revelador. Quando a onça vai ao tribunal para proibir que se fale em onça, a onça já confessou onde está. O resto é apenas aguardar a divulgação. Que virá. A Justiça garantiu isso.

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