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A geometria do medo

Há uma cena que a história da política brasileira repete com paciência franciscana: a do poderoso que, antes mesmo de saber se perdeu, corre ao juiz para que o jogo não seja jogado. Não é derrota antecipada. É medo antecipado. E o medo, quando tem sobrenome de clã, age rápido.

No domingo, enquanto Alagoas ainda terminava de digerir o fim de semana, a coligação Pra Alagoas Fazer História de Novo — que sustenta a candidatura de Renan Filho ao governo — ingressou na Justiça Eleitoral para impedir a divulgação de uma pesquisa do Instituto Paraná Pesquisas, prevista para a segunda-feira. O alvo: o registro AL-03316/2026, referente às disputas para governador e senador no estado. A ação tramita no TRE-AL. A liminar, pedida com urgência.

O detalhe que envergonha está escrito na própria peça processual, sem que os signatários pareçam ter percebido o alcance da confissão. “Não se discute o resultado do levantamento, que ainda não foi divulgado”, registra a petição. Ou seja: a coligação do filho do senador Renan Calheiros — presidente estadual do MDB e arquiteto maior da operação — moveu a máquina jurídica contra um número que ela própria admite não conhecer. O inimigo a abater era uma pesquisa cujo conteúdo ninguém havia lido. A missão era impedir que o resultado “chegue ao eleitorado”. Assim, com essa clareza quase pedagógica.

É uma racionalidade peculiar, essa. Não se censura o que se sabe falso. Censura-se o que se teme verdadeiro. E o temor, aqui, é suficientemente grande para reunir numa única coligação o MDB, o Podemos, o Agir, o PSB, o PSD, o Avante, a Federação Brasil da Esperança e a Federação Renovação Solidária — todo um almanaque de siglas mobilizado para que o eleitor alagoano não leia um número na segunda de manhã. Nunca tantos foram a juízo por tão pouco. Ou por tanto.

Que a democracia pressupõe a livre circulação da informação eleitoral não é novidade nem para um estudante de primeiro período de direito. Que a pesquisa, devidamente registrada, é instrumento legítimo e protegido, tampouco. O que Alagoas viu neste domingo foi algo de outra natureza: um grupo político de longa tradição no poder tentando, preventivamente, apagar uma vela antes de saber se ela ilumina ou queima. O nome disso não é cautela jurídica. É a geometria do medo.

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