Visitas de cortesia têm uma liturgia própria. Há o aperto de mão firme mas não agressivo, o sorriso calibrado para a ocasião, as frases que soam a protocolo diplomático de alto nível e dizem, no fundo, muito pouco — ou talvez digam exatamente o que precisam dizer, para quem sabe ouvir nas entrelinhas.
Na quarta-feira, o prefeito de Maceió, Rodrigo Cunha, compareceu à sede do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas para uma dessas visitas. Levou consigo o chefe de gabinete, Henrique Vasconcelos. Recebeu-os o desembargador Alcides Gusmão da Silva, presidente da Corte. Conversaram sobre “temas institucionais”. Reforçaram a “cooperação entre as instituições públicas”. O desembargador, cumpridor das formas, declarou para o registro que a relação será “pautada pelo respeito, pela cooperação e pelo interesse da sociedade”.
Tudo muito correto. Tudo muito adequado. É justamente essa correção impecável que merece alguma atenção.
Rodrigo Cunha não é apenas prefeito da capital alagoana. É um político de ambições declaradamente maiores, que já percorreu o Senado, ensaiou candidaturas presidenciais e conhece o mapa dos poderes com a familiaridade de quem não é exatamente estreante no jogo. Quando um perfil desse porte cruza as portas de um tribunal eleitoral em visita de cortesia — com chefe de gabinete na comitiva, para dar o peso institucional necessário —, o gesto raramente esgota seu significado nas palavras pronunciadas para a imprensa.
Não se está aqui a insinuar nada que ultrapasse o perímetro do que é público e declarado. Mas a política tem a sua própria gramática dos gestos, e nela a visita de cortesia é um dos capítulos mais antigos. Nos tempos de Maquiavel, chamavam a isso de cultivar o príncipe antes que o príncipe precise ser cultivado. O nome mudou. O costume, não.




