Há um momento preciso na vida de um político em que o discurso, antes afinado com o pulso das ruas, começa a soar como eco de si mesmo. Um delay imperceptível para quem fala, ensurdecedor para quem escuta. Renan Filho parece ter chegado a esse ponto.
O problema não é novo, mas é grave. O cansaço popular não é apenas fadiga com nomes ou faces — é fadiga com a linguagem. Com o vocabulário de sempre, com a promessa que o eleitor já sabe de cor antes de ela sair da boca do orador. Quando o povo antecipa a frase, o discurso perdeu. Simples assim.
Há uma espécie de surdez seletiva que acomete certos políticos com o passar dos mandatos: deixam de ouvir as ruas e passam a ouvir apenas o próprio eco nas salas fechadas, nos corredores palacianos, nos almoços entre iguais. A rua, enquanto isso, muda de sotaque, muda de urgências, muda de humor — e eles ficam para trás, declamando para uma plateia que já saiu do teatro.
Renan Filho terá, portanto, que enfrentar uma adversária com quem nenhum marqueteiro sabe lidar de verdade: a desconexão. Não é oposição que derruba discurso enfadonho — é o bocejo do eleitorado, lento, silencioso e letal. O tédio político é a forma mais democrática de veredicto.
A questão que permanece em aberto é se ele ainda tem tempo e vontade de recalibrar a rota. Política é, entre outras coisas, a arte de perceber quando o salão virou outro — e trocar de passo antes que a música pare. Quem não dança no ritmo certo não cai ao som de um estrondo. Some, devagar, no esquecimento.




