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A suíte em Nova York que o STF não esqueceu

Há uma cena que resume, com precisão quase literária, o que se passou. Homens do poder brasileiro reunidos numa suíte presidencial em Nova York, entre copos de uísque escocês, charutos acesos e mulheres fantasiadas de astronautas. Do lado de fora, o mundo girava. Do lado de dentro, a política nacional flutua em órbita própria — sem gravidade, sem responsabilidade, sem chão.

O anfitrião era Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, aquele que o ministro André Mendonça, com precisão pouco habitual num texto jurídico, chamou de “banqueiro mafioso”. Entre os convidados, segundo os documentos que chegaram ao Supremo, estava Isnaldo Bulhões, líder do MDB, um dos principais engrenagens do projeto político de Renan Filho em Brasília. Não foi um encontro casual. Foram vários: jatinho, camarote, Nova York. A geometria da promiscuidade não se constrói em uma única noite.

O que torna o episódio mais do que uma nota de escândalo é o calendário. Enquanto o Banco Master enfrentava suas dificuldades e buscava apoio para sobreviver em Brasília, Bulhões assinava, como líder partidário, um requerimento de urgência para acelerar projeto que daria ao Congresso poderes sobre a diretoria do Banco Central — dois dias antes de o banco rejeitar a compra do Master pelo BRB. A coincidência, como se diz nos tribunais, é elemento de convicção.

R$ 11,9 milhões em valores de 2024. É o que se sabe que foi gasto nos eventos que incluíram a programação da noite dos charutos, do uísque e das astronautas. A cifra, registrada em documentos citados pela Polícia Federal e remetidos ao ministro Mendonça no STF, não é detalhe biográfico de um banqueiro excêntrico. É o preço da política de influência exercida num período em que decisões bilionárias estavam na mesa.

O Brasil tem uma longa intimidade com esse tipo de cena — o compadrio que flutua entre o favor e a captura, entre o encontro social e o compromisso tácito. O que muda agora é que os documentos existem, as mensagens foram apreendidas, e os registros viajaram até o Supremo. A suíte presidencial em Nova York, com sua atmosfera de carnaval fora de época, pode ter parecido distante o suficiente para não deixar rastros. Não deixou.

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