Há dois Alagoas. Sempre houve.
Um deles carrega o peso de tudo que não foi feito: 13,1% da população adulta que ainda não sabe ler nem escrever, número que é 2,7 vezes a média nacional e que teima em inscrever o estado entre os que o Brasil prefere não olhar nos olhos. Mais de 108 mil matrículas na EJA — jovens e adultos que voltam à escola para buscar o que lhes foi negado na infância, não por falta de talento, mas por falta de tudo o mais. É o Alagoas que o tempo parou, ou mais precisamente, o Alagoas que certas forças interessadas preferiram manter parado, porque a ignorância, convenhamos, sempre foi moeda corrente em determinadas transações políticas.
O outro Alagoas é menor, mais novo, e por isso mesmo mais revelador. Em Maceió, o percentual de crianças alfabetizadas na idade certa saiu de 27,7% em 2021 para 50% em 2025. Vinte e dois pontos percentuais em quatro anos. A fluência leitora dos alunos do segundo ano da rede municipal cresceu 103% no mesmo período. São números que não aparecem por acidente — aparecem quando alguém decide, de fato, que a alfabetização não é promessa de palanque, mas meta de gestão.
O contraste é brutal na sua clareza. Num mesmo estado, os dados coexistem como dois andares de um edifício que não se comunicam: embaixo, o passivo acumulado de décadas de descaso; em cima, ou ao menos num canto do térreo, uma experiência que demonstra ser possível mover o ponteiro. O problema é que mover o ponteiro para as crianças de hoje não desfaz, automaticamente, o dano causado às gerações que já passaram pela escola sem que a escola passasse por elas. Essas 108 mil matrículas na EJA são a conta que chega, com juros, quando o poder público finge que educar pode esperar.
Existe, portanto, uma armadilha na celebração fácil. O avanço de Maceió é real e merece reconhecimento — dobrar o índice de alfabetização infantil em quatro anos não é retórica, é resultado verificável. Mas seria ingenuidade transformá-lo em narrativa de redenção antes que ele atravesse a prova do tempo e da escala. O desafio agora, como reconhece o próprio retrato traçado pelos dados, é que essa geração mais bem alfabetizada altere, lá na frente, a estrutura do problema — que o Alagoas dos 13,1% vá encolhendo à medida que o Alagoas dos 50% for crescendo. Esse é o único sentido em que a boa notícia e a má notícia, postas lado a lado, formam algo parecido com uma política de Estado.
Por enquanto, Alagoas segue sendo, ao mesmo tempo, o retrato do que o Brasil foi por tanto tempo e o esboço, ainda incerto, do que poderia vir a ser.




