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Inimigos convenientes

Há coisas em política que a lógica corrente não explica — e que só fazem sentido quando se abandona o mapa oficial e se olha para o que circula nos bastidores, naquele espaço onde as lealdades têm prazo de validade e os adversários de ontem dividem o mesmo palanque amanhã.

É o que acontece neste final de semana em Alagoas, onde Alfredo Gaspar de Mendonça percorre cidades em caravana ao lado de Arthur Lira, numa aliança que tem Flávio Bolsonaro como arquiteto principal. A cena seria ordinária se não fosse o detalhe que lhe dá tempero: do outro lado do ringue formal, silenciosamente, o PT local também torce — e trabalha — pelo mesmo candidato. Lula e Flávio Bolsonaro, unidos pelo mesmo objetivo eleitoral. A política brasileira, quando decide ser irônica, não faz por menos.

O interesse de Flávio é declarado: eleger Lira é a prioridade. O ex-presidente da Câmara continua sendo peça de alto valor no tabuleiro nacional, e tê-lo como aliado consolidado em Alagoas vale mais do que qualquer disputa pontual de narrativa. Já Lula tem seus próprios cálculos — e esses cálculos, ao que tudo indica, passam por Maceió com a mesma intensidade, apenas com menor alarde.

É o paradoxo que define esta hora do país: enquanto Brasília performa o confronto, as campanhas estaduais exibem a anatomia real do poder. Alfredo Gaspar cavalga entre um Flávio Bolsonaro que o apresenta ao Brasil e um Lula que, à sombra, não move um dedo para atrapalhá-lo. Raramente um candidato a prefeito navegou em águas tão contraditórias com tão ampla cobertura de todas as margens.

A caravana segue. E nela, para quem sabe olhar, está a síntese perfeita do Brasil político de hoje: um país onde as rivalidades têm exceções convenientes, onde os inimigos se entendem quando os interesses coincidem — e onde o eleitor, no fim, é o único que ainda acredita que os lados são fixos.

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