Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

O presente de despedida

Há uma aritmética da despedida que os governantes aprendem antes de qualquer coisa: quem vai embora distribui o que pode, para quem pode, enquanto pode. Paulo Dantas parece ter decorado essa lição com dedicação de aluno aplicado.

Em vinte e dois dias de setembro — faltando quinze para as urnas e três meses para o fim do mandato —, o governador de Alagoas assinou seis decretos que somaram R$ 150,5 milhões em créditos suplementares para a Assembleia Legislativa do Estado. A justificativa técnica é o chamado “excesso de arrecadação”: dinheiro que entrou além do previsto na Lei Orçamentária. A tradução política, essa, dispensa glossário.

O dinheiro foi fatiado entre gestão de pessoas — R$ 126 milhões, a maior fatia — e manutenção das atividades da Casa de Tavares Bastos, com R$ 24,5 milhões. Enquanto isso, a saúde alagoana sangra sob o peso de uma Operação Estágio IV que apura supostos desvios de mais de R$ 100 milhões da Secretaria de Saúde, a população convive com a falta d’água e a pobreza não escolheu férias eleitorais para recuar. O excesso arrecadado, a se acreditar nas prioridades do Executivo, foi mais generoso com quem vota em Dantas do que com quem vota de manhã cedo e ainda volta para casa sem encanamento.

Há em tudo isso uma lógica que Maquiavel reconheceria sem espanto: o príncipe que parte cuida primeiro de amarrar os fios que sustentarão sua memória — e seus aliados. Os parlamentares da ALE, na maioria candidatos à reeleição em 2026, recebem o presente de despedida embalado em decreto e publicado no Diário Oficial com a naturalidade de quem serve o café da manhã. A legibilidade do gesto é quase uma afronta: não há aqui disfarce, véu nem metáfora. É o que parece ser.

O eleitor alagoano, esse, é quem sustenta o enredo de uma ponta à outra — paga o excesso de arrecadação que virou presente, paga a conta da saúde em colapso, paga a conta da água que falta. O que lhe sobra, ao final deste governo, é a pergunta que os decretos não respondem: para quem, afinal, a arrecadação foi excessiva?

VEJA TAMBÉM