Há movimentos na política que dispensam discurso, manifesto ou declaração à imprensa. Falam por si. A aprovação do mandato de cinco anos para o próximo diretor-presidente da Arsal, articulada e conduzida por Marcelo Victor na Assembleia Legislativa, é um desses casos. Uma mensagem endereçada ao governador eleito JHC, escrita não em palavras, mas em votos — e entregue logo nos primeiros dias após as eleições, quando a tinta do resultado mal havia secado.
Chame de demonstração de força, se quiser ser direto. Chame de arquitetura preventiva, se preferir o eufemismo. O nome pouco importa. O que importa é o efeito: a Arsal — agência que regula, controla e fiscaliza serviços públicos vinculados ao Estado, com braço que chega até os gabinetes dos prefeitos — passa a ter seu comando blindado por um mandato que o novo governador simplesmente não pode tocar. A Assembleia escolheu o cadeado e ficou com a chave.
Por trás da jogada, há uma engrenagem de precisão relojoeira. Otávio Lessa, atual conselheiro do Tribunal de Contas, se aposentaria — abrindo a vaga que Paulo Dantas, ao renunciar ao mandato de governador, passaria a ocupar. Com a renúncia do vice Ronaldo Lessa, seria Marcelo Victor quem assinaria a portaria de nomeação do novo conselheiro. E Otávio Lessa, por sua vez, migraria para a Arsal com cinco anos garantidos por estatuto. Um enxadrista diante de um tabuleiro cuidadosamente preparado.
Acontece que enxadrez político raramente é um jogo limpo de peças. Há um detalhe que grulha no meio dessa harmonia toda: Cinco anos de mandato garantidos na Arsal, e um mosquito zumbindo no angu. Não é exatamente a transição mais límpida que se poderia imaginar para quem vai chefiar a agência reguladora mais poderosa do Estado.
Aos 90% de deputados que caminham em bloco sob a batuta de Marcelo Victor, o recado é de coesão. Ao governador eleito JHC, o recado é de outra natureza — aquele que se comunica no silêncio entre aliados, no tom de quem sorri e diz: bem-vindo ao jogo.




