Toda cidade carrega, inscrita em sua malha de ruas e becos, de praças e córregos, a autobiografia de suas escolhas coletivas. Maceió não foge à regra. E quando a Câmara Municipal convoca uma audiência pública para discutir o Plano Diretor, o que está em jogo não é apenas zoneamento ou coeficiente de aproveitamento — é a pergunta mais antiga que qualquer comunidade pode fazer a si mesma: que cidade queremos ser?
A resposta, claro, não será simples. Nunca é. O vereador Samyr Malta, designado relator do projeto, já avisou que sua relatoria não dispensará a escuta do Instituto do Meio Ambiente, do Iplam, do Crea, do Cau, da OAB, da Utal, dos movimentos de moradia, dos pescadores, das associações de bairro. É uma lista longa, e listas longas costumam prometer mais do que entregam. Mas o gesto importa. Importa porque o Plano Diretor é, na definição do próprio relator, a lei mais importante da cidade para os próximos dez anos — e dez anos, na velocidade com que Maceió cresce e se transforma à beira da lagoa e do mar, equivalem a uma eternidade urbanística.
O nó da questão, porém, está numa frase do vereador Malta que merece ser lida com vagar: como gerar emprego sem expulsar a população mais pobre para a periferia. É o dilema que toda grande cidade costuma resolver mal, quando resolve. O desenvolvimento que avança sem olhar para os lados sempre empurra para as franjas os que têm menos força para resistir. Maceió conhece esse roteiro de cor — e a restinga, a lagoa e o mar que o relator promete proteger conhecem também o preço do descuido.
O presidente da Comissão de Assuntos Urbanos, Marcelo Palmeira, fala em processo participativo, em ouvir todos os lados, em fazer o juízo de valor das mudanças. São palavras certas. O teste, como sempre, virá depois — quando os interesses mais organizados se sentarem à mesa e os menos organizados estiverem do lado de fora esperando. A audiência pública do dia 29 de outubro será apenas o primeiro ato de uma peça que pode ser longa, tumultuada e, com alguma sorte, construtiva. O prazo de inscrições aberto até o dia 23 é, pelo menos, um convite. O que Maceió faz com esse convite é o que vai, afinal, definir se este Plano Diretor será memória de uma cidade que se pensou — ou mais um documento de prateleira esperando o próximo ciclo de revisão.



