Há gestos que valem mais que programas de governo. O cumprimento ao adversário eleito é um deles — pequeno na forma, enorme no significado, porque mede a temperatura moral de quem o faz. No Brasil dos últimos anos, acostumamo-nos ao contrário: ao silêncio emburrado, ao comunicado seco redigido por assessoria, à felicitação que chega com atraso calculado para parecer concessão. Daí que uma frase simples, publicada sem rodeios, ainda cause espanto.
JHC parabenizou Lula pela vitória e foi adiante: disse que Alagoas estará ao lado do Brasil, falou em parceria institucional, diálogo, respeito e compromisso com a população. Note-se o vocabulário. Não é o léxico da trincheira, é o do ofício. Quem fala assim não está pedindo passagem na fila do ressentimento — está sinalizando que pretende governar, e que governar exige interlocutores, não inimigos.
O recado tem ainda um segundo andar, mais discreto. Ao invocar o que fez em Maceió e prometer seguir unindo esforços, com inovação e responsabilidade, para mudar a realidade de Alagoas, o autor não fala apenas ao presidente reeleito. Fala ao eleitor alagoano, que há décadas paga a conta da política de desavença, dos estados que brigam com a União por capricho e depois batem à porta de Brasília com o chapéu na mão. A fatura dessa aritmética sempre chega, e nunca ao bolso de quem a assinou.
A boa política tem menos a ver com retórica inflamada do que com aquilo que os antigos chamavam de prudência — virtude discreta, pouco fotogênica, que consiste em saber o que fazer quando o resultado das urnas não é o que você queria. Perder a eleição alheia com elegância é coisa rara numa terra onde se perde até a própria com indignação.
Resta saber se o gesto é convicção ou cálculo. Também isso é segredo das urnas futuras. Mas, convenhamos: num ambiente em que a pirraça virou método e o berro, plataforma, até o cálculo bem-feito já representa um avanço civilizatório. Equilíbrio e maturidade institucional, em Alagoas, não são adjetivos de ocasião — são promessa a ser cobrada. Anote-se a data.




