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Não se conta pinto antes da hora

Dividiam-se ministérios antes de contados os votos. Cogitava-se um nome para a cadeira vazia do Supremo, discutia-se quem despacharia em qual palácio, e tudre isso com a desenvoltura de quem já tem a chave do cofre no bolso. As fotografias circularam: o riso largo, o deboche antecipado, a festa de uma vitória que ainda não havia acontecido. Há um ditado de roça que explica melhor do que qualquer tratado de ciência política: não se conta pinto antes de a galinha botar.

O material que me chega traz uma linha que vale pela coluna inteira — a soberba precede a queda. A frase é velha, vem dos Provérbios, e sobrevive aos séculos justamente porque a cada geração aparece alguém disposto a testá-la na própria carne. Domingo, dia 25, testou-se mais uma vez. Luiz Inácio Lula da Silva reverteu o placar do primeiro turno e se reelegeu para um quarto mandato. Flávio Bolsonaro, que havia saído na frente com 47,04% dos votos válidos contra 45,15% do petista, descobriu que largar na dianteira e cruzar a linha de chegada são coisas que não se confundem.

E aqui está o ponto que os vencedores de ocasião vão demorar a admitir: a esquerda não ganhou esta eleição. A direita a perdeu. Perdeu no intervalo entre os dois turnos, perdeu na arrogância do gesto, perdeu no instante em que trocou a campanha pela posse. Quem comemora antes da hora não está celebrando o eleitor — está dispensando-o. E o eleitor brasileiro, por mais paciente que pareça, tem ouvido fino para essa espécie de desprezo.

O preço veio inteiro e veio à vista. Aos 45 anos, Flávio Bolsonaro ficará sem cargo público pela primeira vez em 24 anos. Entrou na Assembleia Legislativa do Rio aos 21, em 2003, cumpriu quatro mandatos de deputado estadual, elegeu-se senador em 2018 e, por ter optado pelo Planalto, não disputou a reeleição para o Senado. O mandato se encerra em 31 de janeiro de 2027. Dali em diante, a agenda em branco.

Vinte e quatro anos de vida pública ininterrupta formam um homem que talvez já não saiba viver fora dela. É um aprendizado duro, esse de descobrir que a biografia não garante o resultado, que o sobrenome não substitui o voto e que a urna é o único lugar do país onde ninguém é recebido pela antessala. A política dá muitas segundas chances — costuma ser generosa com os derrotados, desde que aprendam. O que ela nunca perdoa é a presunção de que já ganhou.

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