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Ao pai, o afago; ao filho, a lição de casa

Lula oferece a cadeira; Renan Filho pode sentar nela

Há cargos que a gente disputa. E há cargos que a gente herda como quem herda dívida.

A liderança do governo no Senado é do segundo tipo. Num Senado que é o mais direitista desde a ditadura militar, liderar o governo Lula não é poder: é serviço de risco.

O cargo está hoje com Randolfe Rodrigues, que não conseguiu se reeleger. Ou seja: a vaga vai abrir. E, pelo que se ouve, pode cair no colo de Renan Filho.

Não é promoção. É uma cadeira radioativa. No próximo mandato, pode virar algo bem pior do que isso — um cinturão de explosivos amarrado no corpo de quem a ocupar.

Pergunto ao leitor: quem, em sã consciência, pede para sentar ali?

Pois é exatamente por isso que a coisa fica interessante. Porque, para Renan Filho, a cadeira indesejada pode ser justamente o que faltava.

Renan pai soube ser parlamentar em boa parte de sua trajetória política. Soube negociar, soube contar voto, soube saber a hora de recuar — que é a parte que os apressadinhos nunca aprendem. O filho vem de outra escola, a do Executivo, onde se manda e pronto.

Liderar governo no Senado é o contrário disso. É pedir. É convencer. É apanhar na tribuna de manhã e almoçar com quem bateu. É descobrir, na marra, que maioria não se decreta: se constrói, voto a voto, às vezes humilhação a humilhação.

Se Filho topar — e ele está cotado —, terá o curso intensivo que nenhum palácio oferece.

Por enquanto, nada de ministério. O ministério, dizem, ficaria como voto de gratidão de Lula ao pai. Curioso arranjo: ao pai, o afago; ao filho, a lição de casa.

E não é um arranjo bobo. Lula sabe que precisa de alguém que atravesse o deserto do Senado sem se perder no caminho. E sabe, também, que sobrenome em Alagoas abre portas que argumento não abre.

Resta saber se o filho quer a herança. Porque herdar o nome é fácil. Herdar o ofício é que custa.

A cadeira está lá, quente, esperando.

Quem senta nela não sai igual.

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