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A sujeira tem endereço

Dois meses sem salário é uma conta que não se paga com nota oficial. Nem com silêncio, que foi exatamente o que a empresa Reluzir e a Secretaria de Estado da Saúde ofereceram até agora aos mais de 2 mil trabalhadores que varrem, lavam e desinfetam os hospitais de Alagoas. Setembro e outubro viraram abstração contábil. O despejo, porém, é concreto.

Na manhã de ontem, pneus na pista e carro de som na entrada do Hospital da Mulher, no Poço, e no pátio da própria sede da Sesau. Repare no detalhe, que é saboroso no pior sentido: o protesto foi plantado no quintal de quem assina o contrato. Não houve dúvida sobre o endereço da cobrança. Quem limpa o chão da saúde pública sabe muito bem onde fica a sujeira.

O mais revelador desse episódio não é a paralisação em si, mas o vácuo que veio depois. Quatro unidades estaduais com o fluxo operacional afetado, e nenhuma autoridade sanitária capaz de dizer, formalmente, qual foi o tamanho do estrago no atendimento. Não se sabe nem se os repasses contratuais do governo estão em dia. Ninguém diz. Ninguém desmente. A terceirização, que nasceu com a promessa de eficiência, produziu aqui sua obra-prima: um responsável que não aparece.

Enquanto isso, a categoria avisa que fica parada até que exista previsão concreta de depósito — e tem razão, porque previsão vaga já lhe foi servida à exaustão. A higienização de um hospital não é detalhe de rodapé num estado inteiro. É a linha de frente contra a infecção. Quem corta esse fio descobre o preço depois, e caro.

* * *

Dois meses  Setembro e outubro. É esse o tamanho do atraso cobrado pelos trabalhadores da Reluzir, prestadora de serviços terceirizados para a Sesau.

Endereço certo  A concentração não foi ao acaso: entrada do Hospital da Mulher, no bairro do Poço, e o pátio da sede da própria Secretaria de Estado da Saúde.

Mudos  Nem a Reluzir nem a Sesau emitiram nota oficial. Não esclareceram se os repasses contratuais do governo estão em dia nem o que será feito para regularizar os pagamentos.

Sem medida  O impacto no atendimento ao público em pelo menos quatro unidades estaduais ainda não foi dimensionado formalmente pelas autoridades sanitárias. Não medir também é uma forma de não responder.

Enquanto isso  A categoria avisou: as atividades seguem paralisadas até que haja previsão concreta de depósito dos valores pendentes.

Não ofende  Quem fica sem salário por dois meses pode pagar o aluguel com previsão orçamentária?

As más  Mais de 2 mil funcionários atingidos, serviços gerais e higienização comprometidos em unidades de saúde de todo o estado, e trabalhadores relatando ameaças de despejo.

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