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O maior obstáculo da oposição é a própria oposição

A eleição para as presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro de 2027, ainda está distante, mas já há gente fazendo a contagem das cadeiras como quem conta o gado antes de ele nascer. O PL põe nomes na vitrine para disputar os comandos das duas Casas. Hugo Motta sai à caça de assinaturas para garantir a recondução. Davi Alcolumbre faz o mesmo. E o presidente Lula, que não vota em nenhuma das duas Casas, reuniu os dois no Alvorada, na segunda-feira, para avisar que o PT estará com eles. Esse é o Congresso brasileiro: a sucessão começa no dia seguinte à posse.

Repare-se no detalhe que diz tudo. A oposição tem 121 deputados prometidos ao PL na próxima legislatura, número que faria inveja a qualquer bancada da história recente. Mesmo assim, o problema do momento não é derrotar o adversário, mas escolher o próprio candidato sem provocar um racha. No Senado, Rogério Marinho e Tereza Cristina sentam-se à mesa nesta terça-feira para decidir quem enfrentará Alcolumbre, porque dois nomes na disputa significam votos divididos, e votos divididos podem significar uma derrota anunciada. Na Câmara, o cardápio inclui Sóstenes Cavalcante e Altineu Côrtes, ambos do Rio de Janeiro e do mesmo partido. A oposição descobriu que seu maior obstáculo é a própria oposição.

Do outro lado, a aritmética é mansa e silenciosa. Motta já garantiu o apoio do PSD e do PDT e segue conversando com o restante do Centrão e com a esquerda, numa costura que não depende de afinidade ideológica. Alcolumbre segue caminho semelhante. O União Brasil trabalha pela recondução, o PT sinaliza apoio e, assim, forma-se aquela maioria sem cor definida que, no Brasil, se chama governabilidade e que, em outros lugares, poderia ser chamada simplesmente de conveniência.

É aqui que o espetáculo revela sua natureza. A disputa pelas presidências da Câmara e do Senado nunca foi apenas um embate entre projetos de país. Trata-se também de uma disputa por relatorias, emendas, controle da pauta e tempo de plenário. Quem controla o relógio do plenário influencia o funcionamento do governo, qualquer que seja ele. Por isso, o cálculo político não pergunta de que lado está cada um, mas quanto vale cada apoio. O PL sabe disso. Motta sabe. Alcolumbre sabe há mais tempo do que todos.

Resta saber se o eleitor que foi às urnas em outubro de 2026 tem noção de que seu voto será, meses depois, matéria-prima de uma negociação realizada em jantares para os quais ele não foi convidado. A democracia representativa tem essa ironia embutida: escolhemos os jogadores, mas as regras do segundo tempo são combinadas no vestiário. E o vestiário, como se vê, já está aberto desde agora.

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