Transição sem equipe: JHC pede dados e evita a foto
O governador eleito JHC pediu informações ao governador Paulo Dantas sobre a máquina estadual, mas não nomeou equipe de transição. A informação é de Edivaldo Junior. A distinção não é de detalhe: pede-se o inventário do Estado sem constituir o colegiado que, de praxe, se senta à mesa com o governo que sai para examinar contas, contratos e folha de pessoal.
Ao proceder assim, JHC sinaliza que não deseja contato nem fotografia com Dantas. Tampouco com Marcelo Victor, cotado para assumir o governo até o final do ano, na hipótese de Paulo Dantas ser nomeado conselheiro do Tribunal de Contas.
O gesto antecipa um embate e expõe insatisfação pública com Victor. Estão em curso, ou já foram costuradas, mudanças na Arsal, no Procon e na Adeal, com garantia de mandato aos diretores desses órgãos. Os nomes seriam escolhidos pela Assembleia, sem interferência do futuro governador. Mandato fixo blinda o ocupante do cargo contra a troca de governo: quem entra no Palácio encontra os postos preenchidos e as cadeiras travadas. Trata-se, em termos práticos, de retirar do governador eleito a caneta sobre três estruturas da administração indireta, entre elas a agência que regula serviços públicos concedidos e o órgão de defesa do consumidor — ambos custeados pelo contribuinte alagoano.
Soma-se a isso a definição antecipada do comando do Legislativo. Ricardo Nezinho está escolhido para presidir a Assembleia, nome que não é o da preferência de JHC. A combinação é conhecida de quem acompanha transições: o governador chega com o mandato das urnas e encontra, à sua espera, um arranjo pronto no outro poder.
Nada do que está em jogo é novidade na vida republicana brasileira. Toda sucessão produz o mesmo atrito entre o governo que se despede e o que se prepara, e toda tentativa de assegurar cargos na véspera da posse carrega a mesma leitura: quem sai procura deixar amarrado o que não poderá mais controlar. A diferença, aqui, é que o futuro governador decidiu não disfarçar o desconforto.
Resta o essencial, que é o governo em si. A transição existe para que o Estado não pare entre dezembro e janeiro — pagamentos, obras em andamento, convênios, dívidas a vencer. Sem equipe formalmente constituída, as informações solicitadas a Paulo Dantas seguem o caminho do ofício e da boa vontade, não o da rotina institucional. A conta de um repasse malfeito não chega ao palácio nem à Assembleia: chega ao contribuinte, que paga duas vezes pelo mesmo serviço.




