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O recibo da gratidão

 

Na política, gratidão é palavra que se conjuga no futuro. Paga-se adiantado, cobra-se depois, e o recibo circula de mão em mão até ninguém mais saber quem deve a quem. Em Alagoas, esse recibo tem nome, sobrenome e endereço: chama-se Rafael Brito e vai do gabinete do Palácio República dos Palmares às salas forradas de carpete do Tribunal de Contas.

Reeleito deputado federal com votação que surpreendeu até quem apostava nele, Brito não chegou ali sozinho. A disputa com Isnaldo Bulhões, que por pouco não ficou pelo caminho, foi vencida com o que há de mais eficiente em campanha: estrutura. A Educação, pasta onde o parlamentar do MDB tem presença enraizada desde quando a comandou pelas mãos de Renan Filho, e a Seprev, que lhe serviu de retaguarda. Urna não se ganha só com discurso, e disso ninguém em Maceió tem dúvida.

Agora vem a parte em que o favor se transforma em serviço. Brito costura as conversas entre Otávio Lessa, que deve se aposentar do Tribunal de Contas, e Paulo Dantas, que entrega a cadeira de governador em janeiro de 2027 e já sabe onde quer sentar depois. Um sai, o outro entra, e o intermediário é justamente o homem que deve a um a campanha e ao outro a própria biografia.

Porque convém lembrar: foi Lessa quem abriu a porteira ao genro, em 2014, acomodando-o como representante do PDT no grupo de Renan Filho. Quem apresenta o rapaz à política é o sogro; quem lhe garante o mandato é o governador; e é o rapaz quem agora leva e traz os termos do acordo entre os dois. A engenharia é tão simétrica que dispensa comentário — e é aí que mora o problema.

Nada disso é ilegal, registre-se. Tampouco é novidade. O que incomoda é a naturalidade com que o Tribunal de Contas, órgão cuja razão de existir é olhar nos olhos de quem governa e pedir explicações, vai sendo tratado como destino de aposentadoria do próprio governado — perdão, do próprio governante. Fiscal e fiscalizado trocando de lugar na mesma contradança, ao som que a família toca.

Uma mão lava a outra. Em Alagoas, as duas lavam a mesma conta.

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