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Trâmite, não caminho

Há certezas que não nascem de provas. Nascem de hábito. Circulam nos corredores, passam de mesa em mesa, e quando chegam ao fim do dia já vêm vestidas de prognóstico técnico, como se alguém as tivesse medido com régua. A mais recente dessas certezas diz o seguinte: JHC conseguirá reverter na Justiça tudo o que decidir contestar.

Observem o verbo. Não é “poderá”. Não é “tentará”. É “conseguirá”, no futuro do indicativo, que é o tempo verbal dos que não têm dúvida. E o complemento é ainda mais revelador: tudo o que decidir contestar. Ou seja, o resultado não depende do mérito, depende da escolha. A pauta é de quem recorre; o desfecho, uma formalidade a ser cumprida depois.

Ninguém assina essa aposta, convém dizer. Ela vive no condicional elegante do “há quem aposte”, essa construção que permite afirmar sem se comprometer, insinuar sem assumir. É a forma mais antiga de fazer política sem deixar digital. Quem murmura nos bastidores jurídicos não está prevendo uma decisão — está sugerindo um clima. E clima, na vida pública, costuma render mais que argumento.

O desconforto não está na eventual vitória judicial de quem quer que seja. Está na antecipação dela. Quando o prognóstico vira consenso de antessala, o processo deixa de ser caminho e passa a ser trâmite, e o cidadão comum, que não frequenta antessalas, acaba aprendendo que existem dois tipos de litigante: o que vai ao Judiciário para saber qual é o seu direito e o que vai para confirmar o que já lhe garantiram.

Resta a parte que a aposta não menciona. Se a previsão se cumprir, dirão que era óbvia. Se não se cumprir, ninguém a terá feito — porque, afinal, foi apenas “quem aposta”, essa entidade anônima e inimputável que povoa os bastidores de todas as capitais. Nos dois casos, o apostador sai ileso. É sempre assim com as profecias que não têm profeta.

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