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A diligência suspeita

Há uma diligência suspeita no ar de Maceió. A Assembleia Legislativa de Alagoas, que durante três anos e meio tratou o calendário com a parcimônia de quem tem tempo de sobra, descobriu subitamente a urgência. Projetos que dormiam nas gavetas acordaram. Decretos que ninguém lia passaram a ser lidos com apetite. Créditos suplementares, remanejamentos, Arsal, Adeal, Ceasa, Procon — tudo o que se arrastava agora corre. Nunca se trabalhou tanto, e nunca ficou tão claro para quem.

A data do despertar não engana ninguém: outubro. Antes das urnas, a Casa de Tavares Bastos vivia o repouso dos justos; depois delas, virou oficina em regime de mutirão. O presidente Marcelo Victor conduz os colegas ao voto com aquela delicadeza de quem não deixa alternativa — a sinuca de bico como método legislativo. E o que se aprova, em sua maioria, tem um destinatário só: o governador eleito, JHC, que ainda nem sentou na cadeira e já encontra o assento cheio de pregos.

A peça mais eloquente desse zelo tardio é a PEC nº 101/2026, que torna obrigatória a execução das emendas de bancada no orçamento estadual. Traduzindo do dialeto parlamentar para o português: milhões e milhões de reais que o próximo chefe do Executivo não poderá destinar à saúde, à infraestrutura ou à educação, porque já estarão carimbados por quem perdeu a eleição. Chama-se isso de prerrogativa do Legislativo. Também se pode chamar de amarra lavrada com data certa.

O fundo da questão não é institucional, é patrimonial. Perdeu-se o comando dos cargos, dos espaços, da parte do bolo que se repartia sem cerimônia com o governo atual. O MDB saiu das urnas sem o aparato do Estado nas mãos, e a reação não foi a autocrítica — foi o cadeado. Quem não governa mais procura governar de longe, pelo artigo, pelo parágrafo, pela emenda que obriga o sucessor a fazer o que o antecessor não fez.

Resta a transição, essa palavra que em Alagoas anda precisando de aspas. Transição com números maquiados, feita às escuras e às escondidas, não é passagem de bastão: é entrega de cofre sem a chave e sem o inventário. O que o governador Paulo Dantas prefere omitir hoje alguém terá de explicar amanhã, administrativa e juridicamente. Prever desde já o estado das contas seria temerário, e não serei eu a fazê-lo. Mas há uma lição velha como a política: quando o devedor apressa a escritura, convém ler o documento duas vezes.

Ficará registrado, de todo modo, um feito inédito. Alagoas conheceu legislaturas preguiçosas, conheceu legislaturas submissas, conheceu legislaturas distraídas. Faltava conhecer uma que trabalhasse tanto — e com tamanho empenho — para atrapalhar o governador que o povo elegeu.

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