Um milhão de atendimentos é um número que não cabe em discurso de palanque. Cabe em fila, em corredor, em cadeira de plástico, em mãe segurando criança febril às nove da noite. O Corujão da Saúde, programa da Prefeitura de Maceió, acaba de ultrapassar essa marca, e convém dizer o que ela significa antes que venha algum marqueteiro traduzi-la em jingle.
Significa, primeiro, uma constatação elementar que a administração pública brasileira custou décadas a aceitar: a doença não consulta o relógio do expediente. Febre não respeita ponto facultativo. Dor de ouvido de menino não espera a segunda-feira. Durante muito tempo, a saúde pública funcionou como repartição — abria às oito, fechava às cinco, e o resto que se virasse no pronto-socorro lotado ou na reza. Vinte e quatro unidades de Maceió passaram a funcionar fora do horário comercial, e a cidade descobriu que havia um milhão de atendimentos represados nesse intervalo que ninguém queria enxergar.
Significa, também, que política pública boa raramente é a mais engenhosa. É a mais óbvia. Não houve invenção da roda aqui: houve o reconhecimento de que a roda precisava girar à noite. A cidade que trabalha de dia precisa ser atendida depois, e essa frase, de tão simples, atravessou governos sem que muita gente se desse ao trabalho de lê-la.
Há quem torça o nariz para números redondos, e com alguma razão — estatística é matéria-prima de propaganda, todo mundo sabe. Mas a desconfiança não pode virar cegueira. Um milhão de atendimentos é um milhão de episódios em que alguém bateu numa porta e encontrou a porta aberta. Em saúde pública brasileira, porta aberta ainda é notícia. Deveria ser rotina; é notícia.
Fica, então, o registro e fica o alerta. Marco histórico é expressão perigosa, porque sugere ponto final onde deveria haver vírgula. Vinte e quatro unidades não são a cidade inteira. O mérito do Corujão está menos no que já fez do que no que denunciou: a imensa população que, até ontem, adoecia no horário errado.




