Transição de governo deveria ser coisa de cartório: entrega-se a chave, confere-se o inventário, assina-se o recibo. Em Alagoas virou enredo de folhetim, com capítulos, reviravoltas e aquele gancho final que obriga o leitor a comprar o jornal do dia seguinte. Começou com juras de diálogo e serenidade. Passou ao silêncio administrativo, essa arte em que ofício entra pela porta e não sai por lugar nenhum. Terminou onde termina no Brasil tudo aquilo que a política não quis resolver sozinha: na mesa de um juiz.
Na sexta-feira, 30 de outubro, a Justiça mandou o governo liberar em 24 horas o acesso de JHC aos sistemas administrativos e financeiros. No mesmo dia — e esta coincidência de calendário diz mais que qualquer discurso —, Paulo Dantas reassumiu o governo e baixou decreto regulamentando a transição. Dois gestos para o mesmo problema. Um vindo da toga, outro do Diário Oficial. Cada qual com seu relógio.
E é no relógio que mora a graça. A decisão judicial fala em 24 horas. O decreto fala em dez dias úteis, prorrogáveis por mais dez. Quem souber fazer a conta entenderá por que o governo preferiu recorrer da liminar sustentando que o decreto já estabelece as condições do fornecimento das informações. Sustenta-se o que se quiser; a liminar, enquanto a Justiça não a modificar, continua de pé. Regulamentar não é suspender. São obrigações diferentes, e ninguém revoga uma sentença publicando outra coisa.
O decreto, convém dizer, não é peça desleixada. Autoriza até cinco integrantes na equipe do governador eleito, mais dez cargos de apoio, sem aumento da despesa total com pessoal. Cria sete coordenações e uma plataforma para reunir os dados da administração. Há método, há organograma, há até tecnologia. Falta apenas o detalhe que nenhum artigo resolve: saber se JHC vai sentar-se à mesa que lhe prepararam. Montou-se o banquete sem confirmar o convidado.
Porque toda transição é, no fundo, um exercício de confiança entre quem sai e quem chega — e confiança não se decreta, não se intima, não se instala em plataforma digital. Quando o acesso a um sistema de informações precisa de liminar para acontecer, o que se expõe não é a eficiência de um governo nem a impaciência do outro: é o tamanho da desconfiança que os separa. O resto é prazo, coordenação e papel timbrado.
Alagoas assiste. E espera o próximo capítulo, que no folhetim político costuma vir sempre com o mesmo aviso: continua.




