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A chave entregue pontualmente

Há promessas na política que envelhecem mal e há promessas que vencem no dia certo. A de JHC a Rodrigo Cunha pertence à segunda categoria, e isso já é notável num ofício em que o combinado costuma durar o tempo exato da apuração. Cunha abriu mão de um mandato de senador — coisa que, no cálculo nativo, equivale a trocar um imóvel quitado por uma planta baixa — para compor a chapa. Agora recebe a chave. Pontualmente.

O arranjo tem a simetria das casas bem administradas. Cunha sai do Senado, entra Eudócia Caldas, mãe do governador eleito, e dali segue para a cadeira Marina Candia, eleita pelo PSDB. JHC sobe ao Palácio, e o vice herda a Prefeitura de Maceió. Nada se perde, nada se dispersa, tudo se transfere dentro do mesmo perímetro. Quem olha de fora vê sucessão; quem olha de dentro vê um inventário resolvido em vida, sem cartório e sem litígio entre os herdeiros.

Mas a herança vem com cláusula. Prefeito por conclusão de mandato é administrador sem biografia: governa com o time do antecessor, com as prioridades do antecessor, com a sombra do antecessor despachando a algumas quadras dali — e no caso, do outro lado da relação federativa, de onde se liberam convênios. A partir do fim deste ano e do início de 2027, quando os auxiliares mais próximos de JHC migrarem para a máquina estadual, Cunha poderá enfim montar o seu próprio grupo. É a hora da verdade: ou constrói marca de gestor, ou chega a 2028 como o homem que apenas guardou o lugar.

Porque o prêmio não é a posse, é a reeleição. A Prefeitura de Maceió é o alicerce do projeto do grupo vitorioso — sem a capital, o governo estadual vira casa levantada na areia da praia. Quem conhece Alagoas sabe que a cidade é ao mesmo tempo o maior colégio eleitoral e o maior tribunal: perdoa pouco, cobra buraco, cobra fila, cobra ônibus. Discurso ali se gasta rápido.

Há ainda o vento de fora, que sopra a favor. A derrota do PL na eleição presidencial deixou o bolsonarismo local sem o oxigênio de Brasília, e adversário desidratado é adversário barato. O quadro, por ora, é confortável — o que em política é sempre a condição mais perigosa de todas, porque dispensa o esforço. Resta saber se Rodrigo Cunha usará esse intervalo de graça para se tornar competitivo por mérito próprio ou se o consumirá administrando a herança. A primeira hipótese dá um prefeito. A segunda dá apenas um fiador de palavra cumprida — o que é muito para a moral e pouquíssimo para a urna.

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