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Hermenêutica de véspera

 

Governo ainda não começou e a primeira peça já está datilografada. Não é plano de obras, não é reforma administrativa, não é orçamento: é petição. O futuro governador montou uma equipe de advogados azeitada, ansiosa, com aquela pressa típica de quem acredita ter razão e teme que a razão estrague se ficar guardada. Querem o embate antes do embate.

O alvo tem nome de bastidor: o tal “pacote de maldades” assinado no apagar das luzes do governo Dantas/MV. Um caldista garante, com a fé de quem já leu a sentença antes do juiz, que tudo aquilo cai. JHC pensa igual. E a convicção se apoia num diagnóstico simples: as decisões tomadas até aqui não param de pé quando se lhes pede fundamento.

Aqui entra a palavra que anda rodando pelos corredores como moeda gasta de tanto passar de mão em mão — hermenêutica. Interpretar. Dizer o que o texto quer dizer. Ocorre que a hermenêutica tem um defeito encantador: ela nunca chega sozinha ao tribunal. Vem acompanhada de quem a lê, de quando se lê e, sobretudo, de para quem se lê.

Porque direito, no papel, é argumento. Na prática, é também geografia. E nessa geografia Dantas/MV conhece os atalhos: tem laços antigos, cultivados, com integrantes do Judiciário alagoano. Não se constrói isso em transição. Não se constrói isso com memorial bem escrito. JHC ainda vai ter de fazer esse caminho — e fazer caminho, em Alagoas, custa mais tempo do que custa mandato.

Daí a cena curiosa que se desenha: de um lado, uma tropa de advogados impaciente, convencida de que a tese é imbatível; de outro, uma rede de convivências que não precisa de tese nenhuma. Um lado estuda. O outro já mora lá.

O novo governo, portanto, começa pelo fim — pelo litígio sobre os últimos atos do governo anterior. Tudo indica que a primeira grande obra da gestão não será de concreto, e sim de jurisprudência. Veremos se o argumento vence o endereço.

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