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Urna também é documento

Há uma cena que se repete nas despedidas do poder, e ela quase nunca é nobre. Quem sai arruma a casa não para quem chega, mas contra quem chega. Troca as fechaduras. Leva as chaves. Deixa os móveis pregados no chão.

É o que se vê agora em Alagoas, no apagar das luzes de um governo que ainda administra o Estado e já legisla sobre o seguinte. Com o aval da Assembleia Legislativa e a solicitude dos deputados estaduais, montou-se um regime inédito de manobras, blindagens e salvaguardas — tudo para que o poder, formalmente entregue, continue governando por procuração. A coisa pública tratada como coisa própria. Patrimônio de família, inventariado às pressas antes que o juiz chegue.

O detalhe mais revelador não está nas manobras, está no cálculo que as sustenta. Para engessar o próximo governo é preciso, antes, acreditar que o próximo governador não terá força para desengessá-lo. Ou seja: depois de tudo, os adversários de JHC seguem subestimando-o. É um vício antigo e caro. Foi exatamente assim, subestimando, que assistiram a um candidato vencer suas robustas estruturas — e ainda assim não aprenderam a ler o resultado.

Porque urna também é documento. E o documento dizia, em letras garrafais, que a vontade popular queria outra coisa. Ir de encontro a esse veredicto, com engenharias jurídicas de última hora, não é esperteza política: é a confissão de que não se tem mais nada além da engenharia.

Marque-se então a data, que o calendário é implacável com os que confiam demais em artifícios: 6 de janeiro de 2027, dia da posse. Não é o fim do jogo. É o momento em que se descobre, diante de todos, se as amarras feitas às pressas aguentam o peso de um mandato legítimo. Em geral, não aguentam. Em geral, arrebentam justamente no pulso de quem as atou.

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