Há uma aritmética que nenhum palanque confessa: política se conta em prefeitos, e prefeito conta em obra. O mandato de senador rende tribuna, viagem, holofote e um certo prestígio de salão. Não rende asfalto. Renan Filho descobrirá, a partir de agora, a diferença entre ser ouvido e ser procurado.
O grupo que hoje gravita em torno do MDB alagoano foi montado sob a gravidade do Palácio República dos Palmares. Retirado o sol, os planetas não somem — apenas passam a procurar outra estrela. E já existe uma acesa, com endereço certo: o PSDB do governador eleito JHC. A tendência de aproximação não é traição, é fototropismo. Planta nenhuma cresce virada para a sombra.
Os gestores municipais mais necessitados de investimento e de articulação administrativa serão os primeiros a fazer a travessia, e farão sem cerimônia, porque não têm o luxo da cerimônia. Prefeito de município pobre não tem ideologia, tem cronograma. Quando a folha aperta e a máquina range, a fidelidade partidária vira aquilo que sempre foi nos lugares onde o Estado é o maior empregador, o maior credor e o maior fornecedor de esperança: uma hipótese.
Dizem no interior que cabra acompanha o dono até onde tem sal. É a frase mais exata que já se escreveu sobre lealdade política em terra de orçamento curto. Nem os calheiristas de carteirinha — e eles existem, e são muitos, e alguns são de uma devoção genuína — estarão imunes à contabilidade da sobrevivência. Carteirinha não paga fornecedor.
O desafio que se desenha para Renan Filho, portanto, não é eleitoral nem partidário. É de natureza mais íntima e mais cruel: terá de descobrir, nome por nome, quantos aliados o acompanham por convicção e quantos o acompanhavam porque ele morava no palácio. É um inventário que ninguém faz por gosto, e que todo herdeiro político acaba fazendo.
Quem passar nessa prova vira liderança de fato. Quem não passar, vira efeméride.




