Vitrine é palavra que diz mais do que parece. Quem a escolhe está, sem perceber, aceitando a separação entre o que se expõe e o que se guarda no depósito. Na frase dita por JHC na reunião nacional do PSDB, em Brasília, Alagoas aparece arrumada atrás do vidro, com a etiqueta das três virtudes caprichosamente escritas à mão: eficiência, boa governança, transparência.
A escolha do palco não é detalhe. Discursos ditos em Brasília têm uma acústica própria — soam sempre um pouco maiores do que foram pronunciados. Diante de uma plateia partidária, o estado deixa de ser um lugar com gente dentro e vira argumento. Serve de prova, de credencial, de carta de apresentação. Alagoas, ali, não é destino: é meio.
Nada há de escandaloso nisso, convenhamos. A política se faz também de vitrines, e nenhum quadro nacional chega a lugar nenhum pedindo desculpas pela própria terra. O curioso é outro: transparência é justamente a virtude que não se exibe, se pratica. Ou os números estão na mesa, abertos, auditáveis, à disposição de quem queira conferir, ou a palavra fica sendo apenas isso — palavra bonita, de boa sonoridade, dessas que atravessam qualquer congresso partidário sem levantar uma sobrancelha.
Há um verbo decisivo na frase, e ele passa despercebido. “Pode.” Alagoas pode ser uma grande vitrine. O futuro do indicativo é o tempo verbal mais confortável da política brasileira, porque promete sem comprometer e não vence nunca. Quem diz “pode” não diz “é”. E o eleitor, que de intuição entende, sabe distinguir a promessa do inventário.
Fica, então, a pergunta que nenhuma reunião partidária costuma fazer. Vitrine para quem? Para o visitante de passagem, para o colega de sigla, para a câmera de Brasília — ou para o alagoano, que não olha a loja da calçada, mora dentro dela e conhece, um por um, os cômodos que não ganharam iluminação?




