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Ministro do Transporte Renan Filho fala de projeto anti-facção, mas esquece dos problemas do seu próprio Ministério

Enquanto o ministro dos Transportes tenta assumir o papel de comentarista improvisado sobre o projeto Antifacção — classificando como “ruim” um texto que ele sequer se deu ao trabalho de discutir nas comissões — os números ignorados pela própria pasta que ele comanda expõem uma realidade bem mais incômoda. A estratégia é conhecida nos bastidores de Brasília: quando a articulação política do governo identifica risco de derrota, tenta deslocar o foco, criar ruído, deslegitimar o debate técnico antes de a votação ocorrer. Mas, ao olhar para os dados públicos, a pergunta que surge é outra: por que um ministro tão empenhado em criticar um relatório de segurança pública não demonstra a mesma energia para enfrentar os problemas que estão sob sua responsabilidade direta?

Em 2023, o Brasil registrou 34,9 mil mortes no trânsito, um aumento de 2,9% em relação a 2022. O país, que já convive com índices historicamente altos de letalidade viária, continuou sua escalada trágica. E o cenário de 2024 é ainda mais grave: segundo dados do próprio Ministério da Justiça, foram 26.138 vítimas fatais apenas até a última consolidação — um salto de quase 9%. Em qualquer governo com prioridades minimamente alinhadas ao interesse público, esse seria um debate central, e não um tema secundário eclipsado por disputas narrativas.

A infraestrutura nacional, outro pilar do Ministério dos Transportes, também apresenta um quadro alarmante. De acordo com o Tribunal de Contas da União, o Brasil tem 11.469 obras públicas paradas, somando R$ 15,9 bilhões já enterrados em projetos que não foram concluídos. Dentro do próprio ministério, os números são igualmente expressivos: o DNIT — órgão responsável por rodovias, ferrovias e pontes — acumula 108 obras paralisadas, com previsão de investimento de R$ 3,7 bilhões.

Apesar desse passivo gigantesco, o ministro encontra tempo para atacar um projeto legislativo que, até agora, apresentou quatro relatórios, passou por discussão técnica e continua evoluindo dentro das regras regimentais. A crítica externa, descolada do debate institucional e sem participação efetiva nas comissões, soa mais como movimento político do que como contribuição qualificada.

No fim das contas, o contraste é inevitável: enquanto vidas continuam sendo perdidas nas estradas e bilhões permanecem imobilizados em obras que não saem do papel, parte da Esplanada prefere criar narrativas paralelas e disputar protagonismo fora de pauta. A pergunta que fica é simples — e incômoda: quem ganha com essa distração? Porque o país, certamente, não é.

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