Um dos nomes citados pela Polícia Federal nas investigações que apuram um suposto esquema de desvio e lavagem de recursos públicos da Saúde em Alagoas chama atenção não apenas pelo volume financeiro envolvido, mas pelo perfil institucional do investigado. Trata-se de Luiz Dantas Vale, servidor da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) desde 1987. Segundo a PF, ele seria um dos principais operadores financeiros de um esquema que pode ter causado um prejuízo superior a R$ 100 milhões aos cofres do Sistema Único de Saúde (SUS).
De acordo com documentos obtidos pela imprensa, a investigação teve início a partir de uma denúncia anônima, que descreveu de forma detalhada o funcionamento do suposto esquema, apontando nomes, funções e a engrenagem utilizada para movimentar e ocultar recursos públicos. A partir dessas informações, a Polícia Federal passou a rastrear contratos, pagamentos, empresas e movimentações financeiras consideradas atípicas, chegando ao núcleo que agora é alvo das apurações.
Luiz Dantas Vale tomou posse, em agosto de 2025, como membro do Conselho Estadual de Comunicação Social (Consecom-AL), órgão reativado por iniciativa do governador Paulo Dantas (MDB). Apesar da coincidência no sobrenome, fontes oficiais esclarecem que não há qualquer vínculo familiar entre o governador e o servidor investigado. Ainda assim, a presença de um nome citado pela PF em um conselho estratégico do Estado levanta questionamentos sobre critérios de nomeação e mecanismos de controle.
O caso teve impacto direto no comando da Saúde estadual. Gustavo Pontes de Miranda foi afastado do cargo de secretário de Estado da Saúde, por determinação da justiça por 180 dias , até a conclusão das investigações. A decisão ocorre em meio a um cenário de forte desgaste da pasta, marcada por denúncias recorrentes, atrasos a fornecedores, paralisações de serviços e pressão de órgãos de controle.
As apurações também apontam a participação de terceiros no suposto esquema. Entre eles, uma mulher descrita pela PF como suposta amante do ex-secretário, que teria atuado na movimentação e ocultação dos recursos desviados. O fluxo do dinheiro, segundo os investigadores, envolvia múltiplas operações financeiras, com indícios de lavagem e uso de interpostas pessoas.
Paralelamente às investigações, Luiz Dantas Vale esteve recentemente no centro de um episódio político delicado. Ele protagonizou um confronto com vereadores de Maceió durante uma tentativa de intermediação relacionada a um programa de equoterapia voltado para crianças com transtorno do espectro autista. Os vereadores David do Emprego (União Brasil) e Caio Bebeto (PL) relataram publicamente que foram impedidos de acessar dependências da Sesau, episódio que acirrou ainda mais os ânimos entre o Legislativo municipal e a cúpula da Saúde estadual.
Enquanto a Polícia Federal aprofunda as investigações para identificar responsabilidades, recuperar valores e esclarecer a extensão do esquema, o caso expõe fragilidades estruturais na gestão da saúde pública em Alagoas e reforça a necessidade de transparência, fiscalização efetiva e responsabilização dos envolvidos.




