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Clínica investigada segue recebendo recursos públicos após operação da Polícia Federal em Alagoas

Mesmo após a deflagração de uma operação de grande porte da Polícia Federal, que apura um esquema bilionário de desvio de recursos da saúde em Alagoas, os cofres públicos continuaram a irrigar uma das empresas apontadas como peça-chave do suposto conluio. A clínica NOT – Núcleo de Ortopedia e Traumatologia, citada no centro das investigações da Operação Estágio IV, recebeu quase R$ 900 mil em repasses oficiais depois da ação policial, segundo registros do Portal da Transparência do Governo de Alagoas.

A investigação da Polícia Federal mira um esquema que teria drenado mais de R$ 100 milhões da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau), por meio de contratos suspeitos, sobrepreço e serviços supostamente não prestados. Ainda assim, dados públicos mostram que, no dia 23 de dezembro de 2025, a clínica investigada foi contemplada com seis pagamentos realizados no mesmo dia: cinco no valor de R$ 154.152,50 e um adicional de R$ 121.500,00. Somados, os repasses alcançam R$ 892.262,50.

Os valores foram liberados por intermédio do Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do Estado de Alagoas, responsável pela gestão dos recursos. No sistema oficial, as despesas aparecem classificadas como “outros serviços de terceiros – pessoa jurídica”, com o subelemento “serviços médico-hospitalares, odontológicos e laboratoriais”. A descrição genérica, recorrente em contratos públicos da área da saúde, dificulta a identificação precisa dos serviços efetivamente prestados, abrindo espaço para questionamentos sobre a legalidade e a necessidade dos pagamentos.

Especialistas em controle de gastos públicos ouvidos pela reportagem avaliam que a continuidade de repasses a empresas sob investigação acende um alerta institucional. “Quando há indícios robustos de irregularidades, o princípio da precaução recomenda a suspensão cautelar de pagamentos até a completa apuração dos fatos”, afirma um auditor que atua no acompanhamento de contratos da saúde e pediu anonimato. Para ele, manter os fluxos financeiros nessas condições pode comprometer a recuperação de recursos desviados e fragilizar a confiança da sociedade.

Procurados, os órgãos responsáveis ainda não explicaram por que os pagamentos não foram interrompidos após a operação policial. A clínica, por sua vez, sustenta que presta serviços regularmente e que os valores correspondem a procedimentos realizados. A Polícia Federal segue aprofundando as apurações, enquanto o caso expõe uma contradição incômoda: no mesmo momento em que o Estado anuncia o combate a um dos maiores esquemas de corrupção da saúde local, recursos públicos continuam a ser destinados a quem está no epicentro das suspeitas.

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