O convite feito ao deputado federal Alfredo Gaspar para trocar de partido e disputar uma vaga no Senado por Alagoas expõe como a condução de uma investigação sensível no Congresso pode redesenhar projetos políticos e alterar o tabuleiro eleitoral de 2026. Relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, instalada para apurar fraudes bilionárias no sistema previdenciário, Gaspar tornou-se, nos últimos meses, um dos nomes mais visíveis do Legislativo ao conduzir uma apuração que atingiu o coração da máquina pública.
Nesta segunda-feira (26), o presidente nacional do Partido Novo, Eduardo Ribeiro, formalizou o convite para que o parlamentar se filie à legenda e seja o candidato ao Senado no estado. O gesto não ocorreu no vazio. Nos bastidores de Brasília, o movimento é interpretado como a tentativa do Novo de capitalizar politicamente a imagem construída por Gaspar à frente da CPMI, em um momento em que o desgaste institucional provocado pelo escândalo do INSS ainda produz efeitos.
A investigação parlamentar ganhou tração após uma série de reportagens do Metrópoles, publicadas a partir de dezembro de 2023, que revelaram um esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários. As matérias mostraram que entidades associativas ampliaram de forma vertiginosa sua arrecadação — chegando à casa dos R$ 2 bilhões em apenas um ano — enquanto milhares de aposentados e pensionistas recorriam à Justiça para contestar filiações supostamente fraudulentas.
A repercussão jornalística pressionou os órgãos de controle. A Polícia Federalabriu inquérito, e a Controladoria-Geral da União aprofundou auditorias internas. Ao todo, 38 reportagens do Metrópoles foram citadas na representação que embasou a operação policial deflagrada em abril, culminando na queda do então presidente do Instituto Nacional do Seguro Social e na demissão do ministro da Previdência, Carlos Lupi.
Foi nesse ambiente de crise que Alfredo Gaspar consolidou projeção nacional. Ao mesmo tempo em que conduzia audiências tensas e requisitava documentos, o relator passou a ser visto por aliados e adversários como um potencial protagonista eleitoral. O convite do Novo, portanto, não é apenas partidário: sinaliza a tentativa de transformar capital investigativo em capital político. Resta saber se Gaspar aceitará o desafio e como essa possível mudança de legenda impactará tanto o desfecho da CPMI quanto a disputa pelo Senado em Alagoas, onde o escândalo do INSS ainda ecoa como símbolo de um sistema vulnerável e de uma classe política sob vigilância.




