Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

Ervas daninhas do orçamento

Há números que não pedem interpretação. Falam por si, com a eloquência brutal dos algarismos que nenhum orador de palanque consegue superar. A Assembleia Legislativa de Alagoas gastou, nos quatro primeiros meses de 2026, a soma de R$ 109.900.972,91 — repita-se, quase cento e dez milhões de reais — apenas em gratificações pelo exercício de cargos em comissão. Apenas isso. Apenas em quatro meses. O dado consta do próprio Balancete da Despesa da Casa, assinado e publicado, portanto não há como arguir o delito da calúnia.

Ora, pois. Qualquer cidadão minimamente familiarizado com a aritmética pública sabe que cargos em comissão são, na liturgia da política brasileira, o sacramento do clientelismo. São a moeda corrente com que se pagam lealdades, se cimentam alianças e se constroem as arquiteturas invisíveis do poder que nenhum regimento interno ousaria descrever. Não é exclusividade alagoana, diga-se com a honestidade que o ofício exige. Mas em Alagoas, a escala do fenômeno atinge proporções que transformam o argumento da normalidade em simples descaro.

E a memória, teimosa como sempre, não deixa passar a ocasião sem recordar o que já foi. Em 2017, a Polícia Federal desfechou sobre o mesmo Legislativo a Operação Sururugate — nome que o humor involuntário da história gravou com precisão cirúrgica. As investigações revelaram uma divergência de fazer empalidecer qualquer auditor: enquanto a Caixa Econômica Federal registrava cerca de 2.400 funcionários vinculados à Casa, o Ministério do Trabalho recebia dados de aproximadamente 800. Uma diferença de 1.600 servidores. Fantasmas, laranjas, sombras — chame-se como se quiser, a matemática permanece a mesma, perturbadora e irrespondível.

O tempo passou, os escândalos sedimentaram-se no fundo da memória coletiva e a Assembleia, presidida hoje pelo deputado Marcelo Victor, segue empenhando — a palavra é tecnicamente precisa — R$ 118.232.722,23 na mesma rubrica que tantas perguntas já suscitou. Não é o caso de afirmar que a história se repete, figura de retórica que os mais exigentes julgam frouxa. É o caso de observar, com a melancolia de quem lê muito e se surpreende pouco, que certas estruturas têm a resiliência das ervas daninhas: sobrevivem a qualquer reforma anunciada e florescem com viço renovado a cada temporada orçamentária.

Voltemos a Maquiavel, que nunca sai de moda quando o assunto é o exercício nu e cru do poder. O secretário florentino ensinava que os principados se mantêm tanto pelas armas quanto pela habilidade de administrar as aparências. Em Alagoas, a aparência é a do Balancete publicado, transparente na forma, opaco na substância. A verdade dos números está lá, pública e acessível — e é exatamente por isso que incomoda tanto. Não há o que esconder quando o que se esconde está à vista de todos.

VEJA TAMBÉM