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Herança sem inventário

Há números que falam mais alto que qualquer discurso de palanque. E há números que, de tão teimosos, parecem fundir-se à paisagem, como pedra que o tempo não desgasta. Alagoas, vê-se agora pelos dados de 2026, é mestra nessa arte melancólica da permanência: ocupa a 26ª posição entre as 27 unidades da federação no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, à frente apenas do Maranhão. Não é pouca coisa ficar parado quando o mundo inteiro anda.

Ora, pois, o que impressiona não é o atraso — esse, infelizmente, já se tornou velho conhecido. O que impressiona é a constância. Em 2015, primeiro ano do governo Renan Calheiros Filho, o estado amargava a mesma 26ª posição. Onze anos depois, sob o comando de Paulo Dantas, aliado de primeira hora da oligarquia de Murici, Alagoas continua exatamente onde estava. Mudaram-se os governantes, conservou-se o lugar. É a única continuidade administrativa que se cumpre à risca.

Os demais indicadores acompanham o coro. No Índice de Progresso Social Brasil 2026, que mede saúde, segurança, moradia, saneamento e acesso a direitos, o estado figura na 24ª colocação, entre os quatro piores do país. E o Índice de Gini, esse velho juiz da desigualdade, coloca Alagoas entre os estados mais desiguais do Brasil — prova cabal de que o crescimento alardeado nos discursos jamais desceu da vitrine até a base da pirâmide.

Eis o retrato de uma terra onde a riqueza tem endereço fixo e a pobreza, também. A distância entre uns e outros segue intacta, como herança que passa de governo a governo sem inventário. Haja estômago para celebrar tais números.

Mesmo grupo  O dado mais contundente não está na estatística, mas no contexto que a cerca: anos de continuidade administrativa sob o mesmo grupo político, sem que o estado saísse das últimas posições em nenhum dos principais indicadores sociais do país.

A vacância  Paulo Dantas assumiu o comando do estado após a vacância deixada pelo filho de Renan Calheiros, que trocou o Palácio pela candidatura ao Senado Federal. Trocou-se o ocupante, manteve-se a oligarquia.

Não ofende  Onze anos no mesmo posto do ranking — é continuidade administrativa ou apenas inércia com carimbo oficial?

As más  No Índice de Progresso Social Brasil 2026, Alagoas figura na 24ª colocação nacional, integrando o grupo dos quatro estados com as piores condições de vida do país.

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