Há fatos que, de tão sintomáticos, dispensam adjetivo. Bastam-se. A clínica NOT, de Maceió, citada nas investigações da Operação Estágio IV, da Polícia Federal, segue recebendo recursos públicos como se nada houvesse no horizonte. Como se a sombra do inquérito fosse mero detalhe burocrático, dessas nuvens que passam sem chover. Ora, pois. A engenharia é de uma elegância quase didática. Gustavo Pontes de Miranda, secretário de Estado da Saúde de Alagoas, integrou a sociedade da clínica até junho de 2023. Saiu formalmente do quadro societário — formalmente, repare-se na palavra, que aqui faz todo o trabalho — e continuou figurando como integrante do corpo clínico. A esposa, fisioterapeuta, mantém vínculo com a casa. A sociedade muda de pele, mas o corpo permanece. É a velha fábula do lobo que descobre não precisar do disfarce: basta trocar o crachá da porta. E o dinheiro continua escorrendo. Em 2026, a unidade segue registrando o recebimento de verbas públicas, enquanto a investigação caminha, lenta e paralela, num trilho que nunca alcança o trem dos repasses. Os especialistas explicam, com a frieza dos que conhecem as regras do jogo, que a mera existência de uma apuração não barra contratos. É preciso decisão administrativa ou judicial específica. Tradução: enquanto ninguém aciona o freio, o veículo segue rodando, e quem está dentro aproveita a paisagem. Eis o nó do nosso sistema. A suspeita não suspende nada. O inquérito não interrompe o caixa. A máquina pública, essa criatura de hábitos antigos, prefere a inércia ao constrangimento. E assim os órgãos de controle acompanham — verbo dócil, quase contemplativo — enquanto os repasses se acomodam. Convém o registro de cautela, e o faço sem ironia: não há condenação definitiva. Todos os citados têm direito à ampla defesa e ao contraditório, como manda a civilização. Mas o que incomoda não é a presunção de inocência — é a presunção de impunidade que paira sobre o caixa enquanto a Justiça, devagar, calça as botas. A saúde pública de Alagoas, paciente crônica, segue na fila do diagnóstico. E o tratamento, como na velha tísica que afligia os médicos do Renascimento, costuma chegar quando já é tarde demais.




